Os Titãs, já na sua fase de estertor poético-musical, gravaram uma canção que fala sobre como deveríamos ter agido no passado. Assim, seríamos premiados, no presente, com a paz ou menos arrependimento. De tal sorte que, se tivéssemos amado mais, apreciado mais crepúsculos e, quem sabe, estrelas, enfim, se tivéssemos levado uma vida mais poética e menos prosaica, tudo estaria diferente hoje. Melhor, talvez. Longe de querer desenvolver qualquer esboço de crítica a essa letra, da qual, evidentemente, não gosto. O que quero é tomar esse mote recorrente, que poderia ser resumido numa fórmula simples: "O que eu devia ter feito e não fiz?"
Acho que o que não fiz, em larga escala, foi tentar compreender as razões do outro. Que as nossas próprias, a gente sempre sabe. Compreender as razões não serve, evidentemente, para justificá-las ou perdoar quem quer que seja. Não se trata de certo/errado, bom/mau ou qualquer outro indicador na tabela de maniqueísmos. Mas nos dá, ao menos, a justa medida da origem dos conflitos e dos desamores subsequentes. Algumas pessoas são transparentes: a gente enxerga, sem muito esforço, o motor de suas ações. Não são melhores nem piores por isso, mas é mais fácil lidar com elas. É como se pensassem em voz alta o tempo todo. Outras agem segundo motivações que tentam ocultar - ou justificar - pelo discurso, que pode ser próprio ou emprestado. Sempre tive preguiça de tentar desvendar esse discurso, talvez porque o não-dito parecesse mais eloquente. Hoje consigo enxergar, ainda que de forma tênue, a lacuna que isso proporcionou nas minhas relações com algumas pessoas.
Somos feitos de linhas, entrelinhas, verbo em suma, tanto ou mais do que de ações, sentimentos e instintos. Somos livros, bem ou mal escritos. Alguns, com subtextos reais ou falsos, tentando aclarar ou escamotear o enredo, conforme o caso. Passamos o tempo inteiro escrevendo nossa autobiografia para que o outro a leia em tempo real. As transparências, tenho visto, são muito poucas. O mais das vezes é metáfora, elipse, muita obscuridade.
Aprender a ler o outro. Esforço titânico. Mas vale a pena.
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