Teatrinho. Poesiazinha. Você fazia teatrinho e poesiazinha. Você era mestre em emoções diminutivas. Aquilo nem era pra mim, era para alguém que você queria que eu fosse, eu acho que fui rato de laboratório durante um tempo. Reencarnei homem e fui contratado para animar o seu laboratório. Pieguices não vêm de afetos, mas da falta deles, eu disse uma vez, quase sem querer. Não pense que eu gostei de ter dito isso pra você. Mas você rebateu com uma ponta de mágoa, disfarçada no tom solene e doutoral de sempre (você é tão européia, isso cai em você como roupa de griffe), que não são pieguices, são carinhos meio adormecidos, eu tenho que exercitar isso. Vocè não sabe nada de mim, você não sabe o que é sofrimento, não tem idéia, você é de outro meio. Ah, bom, eu tinha me esquecido de que o sofrimento era uma invenção sua. Dentre tantas coisas inéditas que você me trouxe, a mais incomum é essa, eu disse já impaciente, aguardando o próximo round. O das teorias, que era a sua parte preferida na contenda. Sim, era contenda. Delicadíssimos na cama e animais fora dela, eu e você. Devia ser bem o contrário, e no início até que era. E as teorias eram sempre sobre mim, você lembra? Sobre você só havia o sofrimento, você me vendeu a idéia de sobrevivente do holocausto. Um dia você, fênix pós-moderna, se levantou das cinzas e virou uma caricatura. Alguém precisa retocar você.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Somos livros
Os Titãs, já na sua fase de estertor poético-musical, gravaram uma canção que fala sobre como deveríamos ter agido no passado. Assim, seríamos premiados, no presente, com a paz ou menos arrependimento. De tal sorte que, se tivéssemos amado mais, apreciado mais crepúsculos e, quem sabe, estrelas, enfim, se tivéssemos levado uma vida mais poética e menos prosaica, tudo estaria diferente hoje. Melhor, talvez. Longe de querer desenvolver qualquer esboço de crítica a essa letra, da qual, evidentemente, não gosto. O que quero é tomar esse mote recorrente, que poderia ser resumido numa fórmula simples: "O que eu devia ter feito e não fiz?"
Acho que o que não fiz, em larga escala, foi tentar compreender as razões do outro. Que as nossas próprias, a gente sempre sabe. Compreender as razões não serve, evidentemente, para justificá-las ou perdoar quem quer que seja. Não se trata de certo/errado, bom/mau ou qualquer outro indicador na tabela de maniqueísmos. Mas nos dá, ao menos, a justa medida da origem dos conflitos e dos desamores subsequentes. Algumas pessoas são transparentes: a gente enxerga, sem muito esforço, o motor de suas ações. Não são melhores nem piores por isso, mas é mais fácil lidar com elas. É como se pensassem em voz alta o tempo todo. Outras agem segundo motivações que tentam ocultar - ou justificar - pelo discurso, que pode ser próprio ou emprestado. Sempre tive preguiça de tentar desvendar esse discurso, talvez porque o não-dito parecesse mais eloquente. Hoje consigo enxergar, ainda que de forma tênue, a lacuna que isso proporcionou nas minhas relações com algumas pessoas.
Somos feitos de linhas, entrelinhas, verbo em suma, tanto ou mais do que de ações, sentimentos e instintos. Somos livros, bem ou mal escritos. Alguns, com subtextos reais ou falsos, tentando aclarar ou escamotear o enredo, conforme o caso. Passamos o tempo inteiro escrevendo nossa autobiografia para que o outro a leia em tempo real. As transparências, tenho visto, são muito poucas. O mais das vezes é metáfora, elipse, muita obscuridade.
Aprender a ler o outro. Esforço titânico. Mas vale a pena.
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