terça-feira, 6 de maio de 2008

Só louco


Por que de amor para entender é preciso amar? Por quê? Caymmi-poeta perguntou e ninguém respondeu. Silêncio nos livros, silêncio nas academias; senhores de pince-nez pigarrearam e fingiram não ter escutado bem a pergunta. Lá vão mais de 50 anos desde que ele jogou essas pétalas ao vento, pétalas a confundir os teóricos. De teoria ninguém ensinou nada pra ele, mas ele sabia que não precisava. Ele também sabia que amor era doação e não apenas estarrecimento diante do outro, disso ele entendia e não precisou ler nos livros. Ninguém respondeu ao poeta, mas ele tinha a resposta. Por isso amou como um louco e é capaz de amar ainda hoje. Por isso acabou de fazer 94 anos e tem uma pluma pousada no peito, à guisa de coração - um coração leve feito o suspiro da criança que é, pronto pra se misturar ao vento e com ele beijar o sol. Vamos chamar o vento e brindar com o poeta-menino, que acabou de soprar as noventa e quatro velas da sua vida-jangada, com fôlego de marinheiro novo. O mar convida o poeta, é Janaína quem sorri para ele. Quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar, nunca mais se deixa enganar por europeísmos caducos. Evoé, Caymmi. Só louco vai procurar respostas nos livros enquanto a vida encena esse espetáculo. É preciso aprender a só ser, como disse um outro baiano certo dia. Mas chega de teoria, que o mar não espera. Que sabe de amor quem não amou? Que sabe de amor quem não se deixou amar quando teve oportunidade? Um terceiro baiano poderia responder, sem recorrer a nenhum compêndio vetusto: atrás do amor só não vai quem já morreu. Da sacada de um sobrado o poeta contempla a jangada que acabou de sair pro mar. Há sol e vento. O mais são in-significâncias.

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