O Dia das Mães é uma data singela e pura, criada por abnegados membros de associações de lojistas, no intuito de celebrar essa mártir que nos deu a vida e - por que não? - faturar uns trocados, que ninguém é de ferro. Nessa data querida sempre me lembro de Frank Zappa e suas Mothers Of Invention. Lá pelas tantas, Francis Vincent vocifera: My guitar wants to kill your mamma! Impropério inversamente proporcional à realidade: "seo" Francesco Zappa era um cara da paz e na certa teve uma boa mãe, já que parecia invariavelmente de bem com a vida. Era tão palhaço que certa vez lançou-se como pré-pré-candidato à presidência dos Estados Unidos (depois descobriu que não era empreitada para palhaços quaisquer). Por amor à boa velhinha desistiu a tempo. Difícil também, nessa data imaculada, não pensar naquela que teria gerado parte considerável do mal-estar existencial que atravessou o século XX e ainda dura: a mãe do Freud. Mãe de todas as culpas, de todos os complexos e de todas as elucubrações - adoro essa palavra - psico-qualquer-coisa. Sem a menor sombra de hesitação, podemos afirmar que dona Amalie Nathanson foi uma mulher extraordinária, não se duvide disso. Marcou tanto o pequeno Sigmund, que ele parece estar dizendo naquele retrato imortalizado em consultórios de analistas espalhados pelo mundo inteiro: "Mãe, veja que filho porreta você pôs no mundo!" Maior que essa, só Ci, a mãe do mato, mãe de todas as coisas macunaímicas que um dia viraram essa mistura de delícia e caos que é o Brasil. Ci é uma colcha cujos retalhos poderiam ser todas as mães: quem sabe nela não se encontra uma mãe socialista como aquela do Gorki ou uma mãe desesperada como as impropriamente chamadas "locas de la Plaza de Mayo", só porque sonharam um dia em ser avós; ou ainda a supermãe do Ziraldo, a mãe do juiz de futebol, a mãe polanskiana que empurra um carrinho com um bebê demoníaco dentro; ou a minha, a sua, a dele, a dela, a nossa, a vossa? E quem sabe ainda a mãe do Mário de Andrade, que nos contou com tanta beleza a história de Ci e de Macunaíma? Vamos combinar o seguinte: esquecemos os lojistas insensíveis, damos um beijo em nossas mães hoje - ao menos hoje - e deixamos de filosofia besta.
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