segunda-feira, 28 de abril de 2008

Mortos que se levam a sério demais ou "A noiva-cadáver caipira"


Há mediocridades várias nas relações humanas, dentre as quais uma bastante comum é tentar desqualificar um suposto interlocutor. O mundo gira em torno de certos umbigos, isso é notório. A leitura equivocada e míope de fatos e textos, para um sem-número de medíocres arrogantes - isso é quase um pleonasmo -, faz soar um alarme: "Estão falando de mim, preciso urgentemente desqualificar alguém". O que não sabe nada de si também não sabe nada do que acontece do lado de fora de sua porta, isso também é notório. Supõe, passa a vida supondo. Mesmo assim empunha sua espada enferrujada em busca de um triunfo efêmero contra um inimigo imaginário, que vive anos-luz distante do seu mundinho. A cegueira e a vaidade juntas produzem desastres em forma quase-humana. Estéreis e tristes, essas coisinhas mal-paridas querem impingir ao resto do mundo a dor de não gostarem de si próprias. Vivem tentando ver solidão e burrice em tudo, menos onde ela realmente está. R. I. P. pra essa gente, como se lê nas lápides inglesas. Seriam patologias, se não viessem de gente morta que insiste em parecer viva. A vida passou na janela e só a moça da canção não viu. Lá de dentro de sua tumba acredita piamente ser dela que o mundo anda falando. Mas acho que a moça da canção é quase feliz em sua burrice de além-túmulo. Tem família e amigos, ainda que essas categorias soem bastante teóricas em seu curriculum mortae. Mas por que duvidar dela? Mortos não mentem, embora alguns se levem a sério demais e façam suposições demais ao lerem - e mal - textos alheios. Não têm cacife sequer para serem odiados. Quando muito - e já é uma concessão imensa - desprezados.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O senador e a blogueira

Ah, os discursinhos sensíveis! Tenho visto tanto disso por aí que chega a dar náusea. Na tribuna do Senado, nas tribunas virtuais dos blogs, na praia, na rua por onde passo todos o dias para ir a lugar nenhum, enfim, onde quer que eu pouse olhos/ouvidos há o discursinho da sensibilidade-à-flor-da-pele-de-quem-já-não-aguenta-mais-essa-situação. Funcionariam as tais palavrinhas - sempre no estilo copia/cola/enfeita/floreia/edita/bota-fotinho-bacana (citando a fonte, porque essa gente é muito ética, antes de ser sensível) - se eu não conhecesse quem as pôs no mundo. A náusea e o amargor vêm daí, do meu conhecimento prévio da prática cotidiana desses mártires indignados. Do senador corajoso que baba ao apontar o mar de corrupção inédita no país à blogueira que denuncia a falta de amor no mundo e inicia uma jornada para dentro da pureza de si mesma, há de tudo. Vislumbrei maravilhas quando imaginei não conhecê-los, chorei com eles e por eles, fiz vigílias noite após noite no intuito de introjetar suas indignações e anseios pela melhoria do ser humano e das instituições corrompidas que este cria a torto e a direito. Depois, desiludido, pensei em hipocrisia, mas esta sozinha não explica certos comportamentos. O senador que vi mais uma vez ontem na TV é um hipócrita sim, mas tem um quê de patológico que eu também identifico em sua colega de caráter, a blogueira que, entre uma leitura e outra de complexidades psicanalíticas, tão bem reproduzidas no seu espaço zen-virtual, relaxa com novelas da Globo. O tal pai da pátria é figurinha carimbada da putaria que se tornou símbolo de uma era não muito distante. Seu partido, hoje com outro nome, sustentou o neonazismo que matou e torturou brasileiros por duas décadas. A mocinha do exemplo existe e já montou tribuna ao lado do meu ouvido algumas dezenas de vezes, tentando me provar que a prática e o discurso não precisam coincidir - eis uma coisa fora de cogitação em seu infinito particular. Ser filho-da-puta e trair é permitido, desde que haja "razões". De repente me sinto tomado pela incômoda idéia de haver parentescos insuspeitados grassando por aí. Gente cuja prática envergonha o discurso e vice-versa. Aí me vêm saudades dos poetas verdadeiros, que viveram como poetas mesmo, fizeram poesia e deitaram nela, dormiram com fome e não acordaram mais. Para essa corja de falsos poetas, o máximo da inteligência e do "alternativo" é algo como ler Bukowski e praticar algum culto oriental bacaninha. Merecem comer cada grama de merda que Mr. Buk colocou em suas páginas. Mas ele pelo menos era engraçado; já o senador e a blogueira me dão vontade de chorar de raiva. E vomitar. Olha o Bukowski de novo aí.