domingo, 24 de fevereiro de 2008

Um pouco de galope à beira-mar

Uma modesta homenagem a Zé Limeira, o poeta do absurdo, grande figura da literatura de cordel. Tentei ser fiel às maluquices do mestre.


Estava pescando na minha piscina
Num dia qualquer de que já não me lembro
Só sei que foi entre janeiro e dezembro
Fisgou meu anzol uma lesma assassina
É bicho medonho, pois nem carabina
O mostro danado consegue matar
Chamei Zé Limeira, que tava no bar
Chegou bem tranquilo, peixeira na mão,
Sem dó fatiou o terrível bichão
E fez um churrasco na beira do mar.

Nas férias do ano de três mil e vinte
Levei a família em viagem pra Lua
Por falta de hotel, pernoitamos na rua
Foi falsa a promessa de luxo e requinte
Liguei no Procon, reclamando do acinte
E o cabra me disse: "Não posso ajudar!
Tá superlotado o Sistema Solar"
Com tanto trabalho e dinheiro perdido
Naquele momento ficou decidido:
Turismo só faço na beira do mar.

Eu tava no bar entornando a malvada
Lugar bem tranquilo, junto ao cemitério
No exato momento em que entrou Zé Silvério
Que é primo da sogra da minha cunhada
Contando que a Terra tá quase parada
E assim desse jeito ela vai desabar
Falei: "Meu compadre, não fique a chorar
Porque esse problema já tem solução
Botei lá embaixo um enorme colchão
E enchi com metade da água do mar".

Na rua passei por alguém disfarçado
Mas logo notei que era Pedro Primeiro
Corri atrás dele, que foi mais ligeiro
E entrou feito um raio num táxi parado
Gritando: "Depressa! Tô sendo assaltado!"
Após meia hora no mesmo lugar
Compadre, acredite, quem vejo chegar?
Distinta senhora, entre berros e prantos
Faltou ao encontro, a Marquesa de Santos:
Perdera o relógio na beira do mar.

Jurei nunca mais viajar de navio
Mas ontem à noite eu abri uma exceção
Aqui em Taubaté acabou o lotação!
Liguei pra Marinha, falei com meu tio:
"Preciso chegar bem depressa no Rio"
E o velho marujo aportou sem tardar
Dizendo: "Cuidado! Já vai decolar!"
Em cinco minutos, nem mais um segundo
Eu vi o Redentor que protege este mundo
De braços abertos, olhando pro mar.

Chegando à Bahia, encontrei Conselheiro
Não quer mais saber desse tal de Canudos
Agora é cantor, vai entrar pros Menudos
Tem samba no pé, desfilou no Salgueiro
Mas é por prazer, não lhe importa o dinheiro
"E a vida de artista, não vai te cansar?"
Pergunto ao beato, só pra provocar
"Daqui a cem anos lhe dou a resposta"
E foi todo prosa encontrar com Gal Costa
Pra mais um dueto na beira do mar.

Lá foi Zé Limeira fazer embolada
Na Torre de Pisa pra ver se endireita
No fim de dois dias tá quase perfeita!
Mas só que a Itália ficou inclinada
Como é que ele vai consertar a parada?
Chamou o Super-Homem pra desentortar
E a terra da pizza voltou pro lugar
Feliz, todo o povo dançou tarantela
Seu Zé, no avião, acenou da janela
Na hora em que a Lua apontava no mar.

Contou Zé Limeira em seu livro de História:
O doido do Nero era bem mulherengo
Martinho Lutero adorava o Flamengo
Cristóvão Colombo perdeu a memória
(Cismou que a mulher tinha o nome de Glória)
A Vênus de Milo queria dançar
Mas sem os dois braços, só pôde cantar
Um samba de breque louvando Cabral
Que logo em seguida deixou Portugal
Chegando ao Brasil pelas trilhas do mar.

Foi numa excursão aos desertos da China
Que pelo caminho encontrei Raul Seixas
Feliz, sorridente, cercado de gueixas
A mais nova delas, que linda menina!
Fazia até padre largar a batina...
Eu não resisti, resolvi perguntar
O que ele fazia em tão ermo lugar
Ao que respondeu em fluente chinês:
Estava à procura de um cão pequinês
Que fora roubado na beira do mar.

Na Guerra de Tróia, a suprema batalha
É triste episódio, danoso e sangrento
De lá, Zé Limeira, um humilde sargento
Voltou exibindo no peito a medalha
Que Ulisses lhe deu, se a memória não falha
Tributo a seu gênio, que usou para dar
O golpe fatal, de ousadia sem par
Pois foi Zé Limeira o famoso inventor
Do grande cavalo, acredite o senhor,
Que ainda galopa na beira do mar.

Duvido que a vida se acabe na morte
Depois do relato que ouvi de uma tia
Honesta que é, de mentir não havia
Jurou que uma noite o finado consorte
Desceu de uma nuvem (chovia bem forte)
Sem nada dizer ele a fez levitar
E foram-se os dois ao espaço voar
Após uma volta ao redor do planeta
Deixou-a no solo e partiu de lambreta
Molhado de chuva e de água do mar.

Num dia cinzento morreu Zé Limeira
(Que triste essa vida, nem ele era eterno!)
E alguém por engano o mandou pro inferno
A casa do Cão ficou tão galhofeira
Que logo o seu dono perdeu a estribeira:
"Os maus lá de cima aqui vêm pra penar
Me chega esse doido pra tudo estragar!"
No dia seguinte Seu Zé foi-se embora
E o povo do céu aprendeu sem demora
Como é que se canta na beira do mar.

Na ONU foi grande e estrondoso o sucesso
O dia em que ali discursou Zé Limeira
Pediu fosse a paz nossa meta primeira
Sem ela de nada adianta o progresso
Chamou George Bush de louco e possesso
Sujeito perverso, que adora matar
Imita Bin Laden, mas quer criticar
No fim do discurso foi muito aplaudido
E um busto de bronze lhe foi erigido
Em nome da paz lá na beira do mar.

No escuro da noite, na mata fechada
Ouvi bem de perto um terrível miado
Seguido de um ronco raivoso, abafado,
Por Deus Nosso Pai, ali estava a pintada!
A vida pra mim não valia mais nada
No bucho da onça eu iria acabar
Mas fez-se o milagre, eu logrei me salvar
Soltou-se do galho uma jaca madura
Na testa da fera, que ao chão caiu dura
Corri e só parei lá na beira do mar.

Naquela final nos Estados Unidos
Ninguém desconfia o que se sucedeu
No pênalti fácil que a Itália perdeu
Após cento e vinte minutos corridos
Os nossos heróis vêm a campo abatidos
Com medo da zebra que estava a rondar
No chute de Baggio, a pelota no ar
Recebe a pedrada mortal e certeira
Que da arquibancada mandou Zé Limeira
Subindo, aterrissa na beira do mar.

Até japonês aprendeu Zé Limeira
Pois foi samurai com peixeira de prata
Vestindo quimono e calçando alpercata
Vendia sushi de pacu lá na feira
E junto servia um saquê de primeira
E assim via a vida, tranquila passar
Até que Hiroito o chamou pra ensinar
Cordel, embolada, repente e o escambau
E um dia, sem mais, se mandou, disse "tchau!"
Pra ver sol nascente na beira do mar.

Se tem queijo quente, pois bem, também quero
E bota um quentão, se não tem: querosene
Quirera queimando no fogo..."va bene"!
Cardápio romano do bom chef Nero
Latindo em latim na latinha, "che vero"!
Nordeste da Itália, que belo lugar...
A sede na fome se vai saciar
Com carne de sol bem molhada e "al pesto"
Tão fina iguaria, não vá deixar resto
Pra não dar vexame na beira do mar.

Um cabra que sabe de tudo é sabão
Trimestre é o sujeito que é três vezes mestre
Quem limpa a sujeira da crosta terrestre?
Já tem ferradura o cavalo do cão
Saiu lá do mato, galopa no chão
Estrela cadente não sabe voar
Pois vive caindo, sem hora ou lugar
A alma só vê o que o olho não sente
Quem nasce poeta tem medo de gente
Conhece a doçura nas águas do mar.

Bizarra aventura viveu Zé Limeira:
Quando era marujo e servia a Cabral
Logrou reencontrar sua terra natal (!)
Assim que chegou viu uma índia faceira
Com ela casou-se na missa primeira
Em Porto Seguro passou a morar
Caminha lhe deu sociedade num bar
Partindo, deixou nosso herói no comando
E assim esteve o Zé muito bem até quando
Netuno o chamou para o fundo do mar.