
Crês que a tua ciência é a única que encerra a verdade. Admirável é o teu empenho. Com ela construíste para ti mesmo a ilusão de um passado confortável, aquele que mais te convém, no qual tua consciência se acomoda como uma cabeça em um travesseiro macio; tudo se explica e se encaixa magistralmente, ainda que certas passagens sugiram bizarras assimetrias. Também ela, a ciência primordial, é tua fonte inspiradora no presente, transformando-te num juiz amargo, que tudo sabe e a quem nada escapa. Quanto ao futuro, tua ciência não faz previsões confiáveis, e é isso o que mais te atormenta no momento. O templo do teu oráculo não passa de uma cabana tosca.
Mas nem tudo é tormento. Tua ciência - que alguns idiotas e energúmenos considerariam pura metafísica - tem um quê de libertadora: justifica tuas piores atitudes e teus piores sentimentos, assim como teus mais severos e cruéis julgamentos. O mal está sempre no mundo, esse mundo sujo e mesquinho que não comporta teu saber erudito; jamais vislumbras esse mal dentro de ti. Nisso, no entanto, nada tens de original, pois assim são os comuns, os que tanto te horrorizam, embora sejam teus pares - e eles são muitos. Tu consegues a proeza de enxergá-los à distância, quando mais perto não poderiam estar.
Profunda é tua arrogância, na igual medida em que te presumes sábio. Teu medo é que te desvendem raso, impregnado da exata patologia que insistes em apontar nos outros. Assim é que vives a negar a busca desesperada pelas aparências, a mesmice, o vazio da existência, o egoísmo, enfim, teus fantasmas eternos. Em suma, são esses os teus valores, os quais julgas cultuar em segredo, mas que teimam em saltar aos olhos dos menos observadores, daqueles insensíveis que não reparam em nada.
Tua ciência é pura arte de fingir.
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