Era sempre dia lá fora. Dentro, uma noite absurda que não ia embora nunca. Fazer o quê? Desespero era coisa fora de moda, desesperados são chatos, ele próprio queria se convencer disso. Mas sabia que não era exatamente assim. Desesperados, alguém lhe disse, são gente mórbida feito aquelas letras de blues melancólicas que quase sempre contam histórias de pais bêbados, mães enlouquecidas e sarjeta. E nessas horas lhe vinham à cabeça umas vozes roucas envoltas em melodias tristonhas, lamentando as infâncias sem esperança, chorando os poços sem fundo, as ressacas homéricas, as ressacas sem ao menos a lembrança prazerosa da embriaguez; vozes amargas destilando dor e desenhando imagens de garrafas vazias espalhadas pelo chão, miséria, amores desfeitos, amores natimortos, sarjeta, fim da linha. Enquanto em algum lugar da casa um disco arranhado repetia I'd rather be blind, ele olhava o sol lá fora, pensando na ironia: aquela dor infinita dos negros americanos, transformada em música, enchera de dinheiro os bolsos de milhares de brancos espertos pelo mundo afora. Paciência. Afinal, quem sempre vence é a realpolitik.
A noite não ia passar dentro dele. Lá fora, porém, o sol parecia preso em alguma fenda do espaço. Não se mexia, seria dia para sempre. Queria afastar aquilo. Começou então a escrever cartas. Algumas, a maioria, tristes, sisudas, umas poucas alegres como a loucura (sim, ele era dado a alegrias e musicalidades fora de hora. Gostava de surpreender seus amigos com um inesperado senso de humor). As cartas foram surgindo aos poucos: longos poemas sem metro nem rima, mas todas sinceras. Não pensou em enviá-las, bastava-lhe saber o que diziam e para quem se dirigiam. Começou então a imaginar que faria mais sentido se ele próprio as respondesse, já que não se dispunha a fazer com que chegassem às mãos dos destinatários. A tarefa seria demorada e penosa mas talvez valesse a pena. Pelo menos pouparia o trabalho de esperar.
O Sr. X., por exemplo, lhe diria: "Meu jovem amigo, confesso que fiquei muitíssimo preocupado com tuas divagações. Parece que andas a desconfiar dos seres humanos. O que te fizeram? É urgente a tua volta para o mundo dos vivos, sinto que estás perto demais do inferno. Tuas cinzas, de que servirão para nós, os que te estimam?". E terminaria com uma demorada citação de algum obscuro filósofo romeno, sentenciando: "Creio que isso se aplica a ti. Urge que reflitas". Uma tal missiva seria mesmo típica do Sr. X. Sem nunca ter tido grandes idéias próprias, recorria a pequenos e enfadonhos pensamentos alheios. Logo em seguida, a resposta de Y., moça vanguardista que assistia reality shows escondida: "Nossa, o que deu em você? Essa tua carta me fez rir muito, apesar do tom aparentemente sério. Que história é essa de pornosofia sartre-bukowskiana? (...). Da próxima vez me manda um e-mail, tenho alergia a papel de carta. Não sei se te recomendo um divã ou um curso de dança de salão. Beijinho". Sem a menor sombra de dúvida, uma resposta surpreendente para quem já tentara o suicídio duas vezes. Y. era mesmo a própria modernidade. Mais adiante, viria Z., pragmático como sempre: "Vem para cá e vê se pára com essas maluquices. Daqui a pouco o verão acaba e você aí com essas masturbações epistolares. Deixa os políticos lá em Brasília, aquilo é um zoológico necessário, ainda que um tanto caro. Mas enfim, meu Maiakovski suburbano, fodam-se eles, a gente tem que ser feliz, porra. Já li todos esses teus poetas pessimistas e não ganhei nada com isso. E que papo é esse de que Ezra Pound era fascista? Não sei se seria menos poeta por causa disso. Você politiza demais, moleque. A propósito, meu diploma de Letras tá pendurado na parede do banheiro. Da próxima vez te mando uma foto dele". E, como de outras vezes, finalizaria com uma lista quase interminável de novos bares que conhecera nos meses anteriores. E a vida seguiria, divertida. Lá fora ainda era dia, afinal.
