quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Retoques

Teatrinho. Poesiazinha. Você fazia teatrinho e poesiazinha. Você era mestre em emoções diminutivas. Aquilo nem era pra mim, era para alguém que você queria que eu fosse, eu acho que fui rato de laboratório durante um tempo. Reencarnei homem e fui contratado para animar o seu laboratório. Pieguices não vêm de afetos, mas da falta deles, eu disse uma vez, quase sem querer. Não pense que eu gostei de ter dito isso pra você. Mas você rebateu com uma ponta de mágoa, disfarçada no tom solene e doutoral de sempre (você é tão européia, isso cai em você como roupa de griffe), que não são pieguices, são carinhos meio adormecidos, eu tenho que exercitar isso. Vocè não sabe nada de mim, você não sabe o que é sofrimento, não tem idéia, você é de outro meio. Ah, bom, eu tinha me esquecido de que o sofrimento era uma invenção sua. Dentre tantas coisas inéditas que você me trouxe, a mais incomum é essa, eu disse já impaciente, aguardando o próximo round. O das teorias, que era a sua parte preferida na contenda. Sim, era contenda. Delicadíssimos na cama e animais fora dela, eu e você. Devia ser bem o contrário, e no início até que era. E as teorias eram sempre sobre mim, você lembra? Sobre você só havia o sofrimento, você me vendeu a idéia de sobrevivente do holocausto. Um dia você, fênix pós-moderna, se levantou das cinzas e virou uma caricatura. Alguém precisa retocar você.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Somos livros

Os Titãs, já na sua fase de estertor poético-musical, gravaram uma canção que fala sobre como deveríamos ter agido no passado. Assim, seríamos premiados, no presente, com a paz ou menos arrependimento. De tal sorte que, se tivéssemos amado mais, apreciado mais crepúsculos e, quem sabe, estrelas, enfim, se tivéssemos levado uma vida mais poética e menos prosaica, tudo estaria diferente hoje. Melhor, talvez. Longe de querer desenvolver qualquer esboço de crítica a essa letra, da qual, evidentemente, não gosto. O que quero é tomar esse mote recorrente, que poderia ser resumido numa fórmula simples: "O que eu devia ter feito e não fiz?"

Acho que o que não fiz, em larga escala, foi tentar compreender as razões do outro. Que as nossas próprias, a gente sempre sabe. Compreender as razões não serve, evidentemente, para justificá-las ou perdoar quem quer que seja. Não se trata de certo/errado, bom/mau ou qualquer outro indicador na tabela de maniqueísmos. Mas nos dá, ao menos, a justa medida da origem dos conflitos e dos desamores subsequentes. Algumas pessoas são transparentes: a gente enxerga, sem muito esforço, o motor de suas ações. Não são melhores nem piores por isso, mas é mais fácil lidar com elas. É como se pensassem em voz alta o tempo todo. Outras agem segundo motivações que tentam ocultar - ou justificar - pelo discurso, que pode ser próprio ou emprestado. Sempre tive preguiça de tentar desvendar esse discurso, talvez porque o não-dito parecesse mais eloquente. Hoje consigo enxergar, ainda que de forma tênue, a lacuna que isso proporcionou nas minhas relações com algumas pessoas.

Somos feitos de linhas, entrelinhas, verbo em suma, tanto ou mais do que de ações, sentimentos e instintos. Somos livros, bem ou mal escritos. Alguns, com subtextos reais ou falsos, tentando aclarar ou escamotear o enredo, conforme o caso. Passamos o tempo inteiro escrevendo nossa autobiografia para que o outro a leia em tempo real. As transparências, tenho visto, são muito poucas. O mais das vezes é metáfora, elipse, muita obscuridade.

Aprender a ler o outro. Esforço titânico. Mas vale a pena.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Hai-Kai Balão

Pra que fazer poesia
Se é bem mais fácil ficar
No copia/cola, cola/copia?

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Sol

Andando por aí, feliz, descalço, encontrando gente e coisas de cuja existência você sequer suspeita. Agindo, fazendo coisas, vivendo de verdade. Enquanto isso, seu existencialismo de botequim conquista adeptos.

domingo, 18 de maio de 2008

Exercícios de ilógica total - um roteiro para Indiana Chomsky


Conjugar o verbo conjugar, indicativamente, sem subjuntividades imperativas, tampouco infinitivas, suprimindo todas as desinências radicais. Fazer a crítica da cyber-metalinguagem passada e contemporânea, sem se utilizar de palavras ou quaisquer sinais gráficos e/ou sonoros. Discorrer livre e diretamente sobre o discurso indireto livre, exemplificando de forma oculta. Justificar a onisciência do narrador, à luz de alguma teologia. Acusar, nas frases acima, todas as subjetividades impositivas. Objetivamente, conjugar-se. Flexionar-se a si próprio, em todas as formas possíveis, ser todas as personas verbais do verso de alguma divindade - a escolher - excetuando-se aquelas sobre as quais nada se saiba de concreto. Conjugar os versos abaixo, apontar a forma ideal de fundir seus hemistíquios, caso se mostrem irremediavelmente alexandrinos, e eliminar cesuras de quaisquer espécies, como num sonho. Em relação ao sonho, cair em sono profundo e guerrear contra todos os truísmos redundantes e oníricos que encontrar no já referido. Subjugar a sintaxe do inimigo, deixá-lo à míngua de objetos de análise e sujeitá-lo aos mais diversos e abomináveis predicados. Viver a morte, relatando todos os passos. Morrer a vida, fazendo o caminho inverso. Voltar de costas, apagando todos os vestígios e todas as palavras utilizadas anteriormente. Parar. Olhar em volta. Acordar, contar as vogais de "Os Lusíadas" e extrair a raiz quadrada do resultado. Guardar esse número em segredo até o Juízo Final. Vale um ingresso para o circo.

domingo, 11 de maio de 2008

Mães

O Dia das Mães é uma data singela e pura, criada por abnegados membros de associações de lojistas, no intuito de celebrar essa mártir que nos deu a vida e - por que não? - faturar uns trocados, que ninguém é de ferro. Nessa data querida sempre me lembro de Frank Zappa e suas Mothers Of Invention. Lá pelas tantas, Francis Vincent vocifera: My guitar wants to kill your mamma! Impropério inversamente proporcional à realidade: "seo" Francesco Zappa era um cara da paz e na certa teve uma boa mãe, já que parecia invariavelmente de bem com a vida. Era tão palhaço que certa vez lançou-se como pré-pré-candidato à presidência dos Estados Unidos (depois descobriu que não era empreitada para palhaços quaisquer). Por amor à boa velhinha desistiu a tempo. Difícil também, nessa data imaculada, não pensar naquela que teria gerado parte considerável do mal-estar existencial que atravessou o século XX e ainda dura: a mãe do Freud. Mãe de todas as culpas, de todos os complexos e de todas as elucubrações - adoro essa palavra - psico-qualquer-coisa. Sem a menor sombra de hesitação, podemos afirmar que dona Amalie Nathanson foi uma mulher extraordinária, não se duvide disso. Marcou tanto o pequeno Sigmund, que ele parece estar dizendo naquele retrato imortalizado em consultórios de analistas espalhados pelo mundo inteiro: "Mãe, veja que filho porreta você pôs no mundo!" Maior que essa, só Ci, a mãe do mato, mãe de todas as coisas macunaímicas que um dia viraram essa mistura de delícia e caos que é o Brasil. Ci é uma colcha cujos retalhos poderiam ser todas as mães: quem sabe nela não se encontra uma mãe socialista como aquela do Gorki ou uma mãe desesperada como as impropriamente chamadas "locas de la Plaza de Mayo", só porque sonharam um dia em ser avós; ou ainda a supermãe do Ziraldo, a mãe do juiz de futebol, a mãe polanskiana que empurra um carrinho com um bebê demoníaco dentro; ou a minha, a sua, a dele, a dela, a nossa, a vossa? E quem sabe ainda a mãe do Mário de Andrade, que nos contou com tanta beleza a história de Ci e de Macunaíma? Vamos combinar o seguinte: esquecemos os lojistas insensíveis, damos um beijo em nossas mães hoje - ao menos hoje - e deixamos de filosofia besta.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Os cravos de abril

Eis Ary dos Santos e seu discurso/poema emocionado, a lembrar os cravos que enfeitavam fuzis naquele quase distante 25 de abril:

As portas que abril abriu - José Carlos Ary dos Santos

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite –
pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue –
é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.

E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.

Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.

Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.

Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos —
cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.
Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.

Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.

Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

Lisboa, Julho-Agosto de 1975

terça-feira, 6 de maio de 2008

Leitura


Abro o livro de poesia -
exercito o tato e o gosto.
Já me aquece a manhã fria:
sabe doce o mês de agosto.

Só louco


Por que de amor para entender é preciso amar? Por quê? Caymmi-poeta perguntou e ninguém respondeu. Silêncio nos livros, silêncio nas academias; senhores de pince-nez pigarrearam e fingiram não ter escutado bem a pergunta. Lá vão mais de 50 anos desde que ele jogou essas pétalas ao vento, pétalas a confundir os teóricos. De teoria ninguém ensinou nada pra ele, mas ele sabia que não precisava. Ele também sabia que amor era doação e não apenas estarrecimento diante do outro, disso ele entendia e não precisou ler nos livros. Ninguém respondeu ao poeta, mas ele tinha a resposta. Por isso amou como um louco e é capaz de amar ainda hoje. Por isso acabou de fazer 94 anos e tem uma pluma pousada no peito, à guisa de coração - um coração leve feito o suspiro da criança que é, pronto pra se misturar ao vento e com ele beijar o sol. Vamos chamar o vento e brindar com o poeta-menino, que acabou de soprar as noventa e quatro velas da sua vida-jangada, com fôlego de marinheiro novo. O mar convida o poeta, é Janaína quem sorri para ele. Quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar, nunca mais se deixa enganar por europeísmos caducos. Evoé, Caymmi. Só louco vai procurar respostas nos livros enquanto a vida encena esse espetáculo. É preciso aprender a só ser, como disse um outro baiano certo dia. Mas chega de teoria, que o mar não espera. Que sabe de amor quem não amou? Que sabe de amor quem não se deixou amar quando teve oportunidade? Um terceiro baiano poderia responder, sem recorrer a nenhum compêndio vetusto: atrás do amor só não vai quem já morreu. Da sacada de um sobrado o poeta contempla a jangada que acabou de sair pro mar. Há sol e vento. O mais são in-significâncias.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Mortos que se levam a sério demais ou "A noiva-cadáver caipira"


Há mediocridades várias nas relações humanas, dentre as quais uma bastante comum é tentar desqualificar um suposto interlocutor. O mundo gira em torno de certos umbigos, isso é notório. A leitura equivocada e míope de fatos e textos, para um sem-número de medíocres arrogantes - isso é quase um pleonasmo -, faz soar um alarme: "Estão falando de mim, preciso urgentemente desqualificar alguém". O que não sabe nada de si também não sabe nada do que acontece do lado de fora de sua porta, isso também é notório. Supõe, passa a vida supondo. Mesmo assim empunha sua espada enferrujada em busca de um triunfo efêmero contra um inimigo imaginário, que vive anos-luz distante do seu mundinho. A cegueira e a vaidade juntas produzem desastres em forma quase-humana. Estéreis e tristes, essas coisinhas mal-paridas querem impingir ao resto do mundo a dor de não gostarem de si próprias. Vivem tentando ver solidão e burrice em tudo, menos onde ela realmente está. R. I. P. pra essa gente, como se lê nas lápides inglesas. Seriam patologias, se não viessem de gente morta que insiste em parecer viva. A vida passou na janela e só a moça da canção não viu. Lá de dentro de sua tumba acredita piamente ser dela que o mundo anda falando. Mas acho que a moça da canção é quase feliz em sua burrice de além-túmulo. Tem família e amigos, ainda que essas categorias soem bastante teóricas em seu curriculum mortae. Mas por que duvidar dela? Mortos não mentem, embora alguns se levem a sério demais e façam suposições demais ao lerem - e mal - textos alheios. Não têm cacife sequer para serem odiados. Quando muito - e já é uma concessão imensa - desprezados.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O senador e a blogueira

Ah, os discursinhos sensíveis! Tenho visto tanto disso por aí que chega a dar náusea. Na tribuna do Senado, nas tribunas virtuais dos blogs, na praia, na rua por onde passo todos o dias para ir a lugar nenhum, enfim, onde quer que eu pouse olhos/ouvidos há o discursinho da sensibilidade-à-flor-da-pele-de-quem-já-não-aguenta-mais-essa-situação. Funcionariam as tais palavrinhas - sempre no estilo copia/cola/enfeita/floreia/edita/bota-fotinho-bacana (citando a fonte, porque essa gente é muito ética, antes de ser sensível) - se eu não conhecesse quem as pôs no mundo. A náusea e o amargor vêm daí, do meu conhecimento prévio da prática cotidiana desses mártires indignados. Do senador corajoso que baba ao apontar o mar de corrupção inédita no país à blogueira que denuncia a falta de amor no mundo e inicia uma jornada para dentro da pureza de si mesma, há de tudo. Vislumbrei maravilhas quando imaginei não conhecê-los, chorei com eles e por eles, fiz vigílias noite após noite no intuito de introjetar suas indignações e anseios pela melhoria do ser humano e das instituições corrompidas que este cria a torto e a direito. Depois, desiludido, pensei em hipocrisia, mas esta sozinha não explica certos comportamentos. O senador que vi mais uma vez ontem na TV é um hipócrita sim, mas tem um quê de patológico que eu também identifico em sua colega de caráter, a blogueira que, entre uma leitura e outra de complexidades psicanalíticas, tão bem reproduzidas no seu espaço zen-virtual, relaxa com novelas da Globo. O tal pai da pátria é figurinha carimbada da putaria que se tornou símbolo de uma era não muito distante. Seu partido, hoje com outro nome, sustentou o neonazismo que matou e torturou brasileiros por duas décadas. A mocinha do exemplo existe e já montou tribuna ao lado do meu ouvido algumas dezenas de vezes, tentando me provar que a prática e o discurso não precisam coincidir - eis uma coisa fora de cogitação em seu infinito particular. Ser filho-da-puta e trair é permitido, desde que haja "razões". De repente me sinto tomado pela incômoda idéia de haver parentescos insuspeitados grassando por aí. Gente cuja prática envergonha o discurso e vice-versa. Aí me vêm saudades dos poetas verdadeiros, que viveram como poetas mesmo, fizeram poesia e deitaram nela, dormiram com fome e não acordaram mais. Para essa corja de falsos poetas, o máximo da inteligência e do "alternativo" é algo como ler Bukowski e praticar algum culto oriental bacaninha. Merecem comer cada grama de merda que Mr. Buk colocou em suas páginas. Mas ele pelo menos era engraçado; já o senador e a blogueira me dão vontade de chorar de raiva. E vomitar. Olha o Bukowski de novo aí.

segunda-feira, 3 de março de 2008

A Internet torna as pessoas inteligentes


O título acima, se levado a sério, poderia me custar um processo judicial, quiçá uma interdição. Já se fez muito mais por muito menos. Mas a idéia que me seduz é exatamente a oposta, embora eu não queira ser parcial ou induzir a opinião de ninguém. Vamos fazer então um exercício de dialética. Dialética de boteco, que é uma subespécie da filosofia de boteco, esta por sua vez uma prima distante da psicanálise de boteco. (Sobre a psicanálise de boteco, by the way, recomendo o blog da soi-disant escritora Helga Silveira, a Guiga).

Feitas as apresentações e gracinhas, voltemos ao assunto. Steely Dan me enche os ouvidos com uma atmosfera bluesy em Pretzel Logic, neste exato momento. O clima é favorável à lógica e à dialética, portanto. Elejamos nossa tese: A Internet torna as pessoas inteligentes. Urge encontrarmos a antítese - algo que não é tão simples como parece, aliás. Não basta afirmar exatamente o contrário e achar que se está diante de uma antítese: "A Internet torna as pessoas burras" não é o que queremos, embora saibamos de antemão que há um emburrecimento geral pairando no éter desde o advento da web. Da linguagem ao cardápio dos restaurantes, o que corta os ares há tempos é um quê de insuficiência cerebral. Mas as novelas da Globo, bem como sua programação de domingo também são suspeitas, podendo inclusive potencializar os supostos efeitos da rede, se administradas concomitantemente ao uso do computador, a máquina mortífera. Sim, estou sendo parcial. Perdoem. O júri deverá desconsiderar as últimas frases. Thank you, your honor.

Uma candidata a antítese: a Internet é um fator de alienação. Uma vez que a alienação, até onde se sabe, opõe-se ferozmente à inteligência, temos aí uma boa candidata a antítese de nossa tese. (Tá complicado? Não se avexe, vai piorar). Avançamos consideravelmente nos últimos dois minutos - ou duas horas, dependendo do tempo que você leva para ler. Começamos timidamente, despretensiosos, humildes e...voilà! Temos o orgulho de apresentar uma tese e sua antítese. O mais divertido disso tudo é que nem tentaremos descobrir se há verdade nelas. Vamos, isto sim, jogá-las no ventilador e extrair uma síntese que pareça convincente.

Tipo assim: a Internet criou um tipo particular de inteligência, reconhecível apenas pelos iniciados. Serve pra você?

Pode ser, e eu lamento, que tudo isso seja apenas delírio de quem já está até o pescoço enfiado na areia movediça da teia mundial de computadores. Pode ser também que toda a inteligência e conhecimento tenham migrado dos livros para a Wikipédia e o Google. Pode ser um porrilhão* de coisas. Pode ser que o melhor mesmo seja desligar o computador e abrir um livro. Ou namorar. Ou encher a cara de pinga.

Pode ser.


* 10 elevado a um número grande pra c... ou o inverso do pentelhésimo.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Um pouco de galope à beira-mar

Uma modesta homenagem a Zé Limeira, o poeta do absurdo, grande figura da literatura de cordel. Tentei ser fiel às maluquices do mestre.


Estava pescando na minha piscina
Num dia qualquer de que já não me lembro
Só sei que foi entre janeiro e dezembro
Fisgou meu anzol uma lesma assassina
É bicho medonho, pois nem carabina
O mostro danado consegue matar
Chamei Zé Limeira, que tava no bar
Chegou bem tranquilo, peixeira na mão,
Sem dó fatiou o terrível bichão
E fez um churrasco na beira do mar.

Nas férias do ano de três mil e vinte
Levei a família em viagem pra Lua
Por falta de hotel, pernoitamos na rua
Foi falsa a promessa de luxo e requinte
Liguei no Procon, reclamando do acinte
E o cabra me disse: "Não posso ajudar!
Tá superlotado o Sistema Solar"
Com tanto trabalho e dinheiro perdido
Naquele momento ficou decidido:
Turismo só faço na beira do mar.

Eu tava no bar entornando a malvada
Lugar bem tranquilo, junto ao cemitério
No exato momento em que entrou Zé Silvério
Que é primo da sogra da minha cunhada
Contando que a Terra tá quase parada
E assim desse jeito ela vai desabar
Falei: "Meu compadre, não fique a chorar
Porque esse problema já tem solução
Botei lá embaixo um enorme colchão
E enchi com metade da água do mar".

Na rua passei por alguém disfarçado
Mas logo notei que era Pedro Primeiro
Corri atrás dele, que foi mais ligeiro
E entrou feito um raio num táxi parado
Gritando: "Depressa! Tô sendo assaltado!"
Após meia hora no mesmo lugar
Compadre, acredite, quem vejo chegar?
Distinta senhora, entre berros e prantos
Faltou ao encontro, a Marquesa de Santos:
Perdera o relógio na beira do mar.

Jurei nunca mais viajar de navio
Mas ontem à noite eu abri uma exceção
Aqui em Taubaté acabou o lotação!
Liguei pra Marinha, falei com meu tio:
"Preciso chegar bem depressa no Rio"
E o velho marujo aportou sem tardar
Dizendo: "Cuidado! Já vai decolar!"
Em cinco minutos, nem mais um segundo
Eu vi o Redentor que protege este mundo
De braços abertos, olhando pro mar.

Chegando à Bahia, encontrei Conselheiro
Não quer mais saber desse tal de Canudos
Agora é cantor, vai entrar pros Menudos
Tem samba no pé, desfilou no Salgueiro
Mas é por prazer, não lhe importa o dinheiro
"E a vida de artista, não vai te cansar?"
Pergunto ao beato, só pra provocar
"Daqui a cem anos lhe dou a resposta"
E foi todo prosa encontrar com Gal Costa
Pra mais um dueto na beira do mar.

Lá foi Zé Limeira fazer embolada
Na Torre de Pisa pra ver se endireita
No fim de dois dias tá quase perfeita!
Mas só que a Itália ficou inclinada
Como é que ele vai consertar a parada?
Chamou o Super-Homem pra desentortar
E a terra da pizza voltou pro lugar
Feliz, todo o povo dançou tarantela
Seu Zé, no avião, acenou da janela
Na hora em que a Lua apontava no mar.

Contou Zé Limeira em seu livro de História:
O doido do Nero era bem mulherengo
Martinho Lutero adorava o Flamengo
Cristóvão Colombo perdeu a memória
(Cismou que a mulher tinha o nome de Glória)
A Vênus de Milo queria dançar
Mas sem os dois braços, só pôde cantar
Um samba de breque louvando Cabral
Que logo em seguida deixou Portugal
Chegando ao Brasil pelas trilhas do mar.

Foi numa excursão aos desertos da China
Que pelo caminho encontrei Raul Seixas
Feliz, sorridente, cercado de gueixas
A mais nova delas, que linda menina!
Fazia até padre largar a batina...
Eu não resisti, resolvi perguntar
O que ele fazia em tão ermo lugar
Ao que respondeu em fluente chinês:
Estava à procura de um cão pequinês
Que fora roubado na beira do mar.

Na Guerra de Tróia, a suprema batalha
É triste episódio, danoso e sangrento
De lá, Zé Limeira, um humilde sargento
Voltou exibindo no peito a medalha
Que Ulisses lhe deu, se a memória não falha
Tributo a seu gênio, que usou para dar
O golpe fatal, de ousadia sem par
Pois foi Zé Limeira o famoso inventor
Do grande cavalo, acredite o senhor,
Que ainda galopa na beira do mar.

Duvido que a vida se acabe na morte
Depois do relato que ouvi de uma tia
Honesta que é, de mentir não havia
Jurou que uma noite o finado consorte
Desceu de uma nuvem (chovia bem forte)
Sem nada dizer ele a fez levitar
E foram-se os dois ao espaço voar
Após uma volta ao redor do planeta
Deixou-a no solo e partiu de lambreta
Molhado de chuva e de água do mar.

Num dia cinzento morreu Zé Limeira
(Que triste essa vida, nem ele era eterno!)
E alguém por engano o mandou pro inferno
A casa do Cão ficou tão galhofeira
Que logo o seu dono perdeu a estribeira:
"Os maus lá de cima aqui vêm pra penar
Me chega esse doido pra tudo estragar!"
No dia seguinte Seu Zé foi-se embora
E o povo do céu aprendeu sem demora
Como é que se canta na beira do mar.

Na ONU foi grande e estrondoso o sucesso
O dia em que ali discursou Zé Limeira
Pediu fosse a paz nossa meta primeira
Sem ela de nada adianta o progresso
Chamou George Bush de louco e possesso
Sujeito perverso, que adora matar
Imita Bin Laden, mas quer criticar
No fim do discurso foi muito aplaudido
E um busto de bronze lhe foi erigido
Em nome da paz lá na beira do mar.

No escuro da noite, na mata fechada
Ouvi bem de perto um terrível miado
Seguido de um ronco raivoso, abafado,
Por Deus Nosso Pai, ali estava a pintada!
A vida pra mim não valia mais nada
No bucho da onça eu iria acabar
Mas fez-se o milagre, eu logrei me salvar
Soltou-se do galho uma jaca madura
Na testa da fera, que ao chão caiu dura
Corri e só parei lá na beira do mar.

Naquela final nos Estados Unidos
Ninguém desconfia o que se sucedeu
No pênalti fácil que a Itália perdeu
Após cento e vinte minutos corridos
Os nossos heróis vêm a campo abatidos
Com medo da zebra que estava a rondar
No chute de Baggio, a pelota no ar
Recebe a pedrada mortal e certeira
Que da arquibancada mandou Zé Limeira
Subindo, aterrissa na beira do mar.

Até japonês aprendeu Zé Limeira
Pois foi samurai com peixeira de prata
Vestindo quimono e calçando alpercata
Vendia sushi de pacu lá na feira
E junto servia um saquê de primeira
E assim via a vida, tranquila passar
Até que Hiroito o chamou pra ensinar
Cordel, embolada, repente e o escambau
E um dia, sem mais, se mandou, disse "tchau!"
Pra ver sol nascente na beira do mar.

Se tem queijo quente, pois bem, também quero
E bota um quentão, se não tem: querosene
Quirera queimando no fogo..."va bene"!
Cardápio romano do bom chef Nero
Latindo em latim na latinha, "che vero"!
Nordeste da Itália, que belo lugar...
A sede na fome se vai saciar
Com carne de sol bem molhada e "al pesto"
Tão fina iguaria, não vá deixar resto
Pra não dar vexame na beira do mar.

Um cabra que sabe de tudo é sabão
Trimestre é o sujeito que é três vezes mestre
Quem limpa a sujeira da crosta terrestre?
Já tem ferradura o cavalo do cão
Saiu lá do mato, galopa no chão
Estrela cadente não sabe voar
Pois vive caindo, sem hora ou lugar
A alma só vê o que o olho não sente
Quem nasce poeta tem medo de gente
Conhece a doçura nas águas do mar.

Bizarra aventura viveu Zé Limeira:
Quando era marujo e servia a Cabral
Logrou reencontrar sua terra natal (!)
Assim que chegou viu uma índia faceira
Com ela casou-se na missa primeira
Em Porto Seguro passou a morar
Caminha lhe deu sociedade num bar
Partindo, deixou nosso herói no comando
E assim esteve o Zé muito bem até quando
Netuno o chamou para o fundo do mar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

XYZ

Era sempre dia lá fora. Dentro, uma noite absurda que não ia embora nunca. Fazer o quê? Desespero era coisa fora de moda, desesperados são chatos, ele próprio queria se convencer disso. Mas sabia que não era exatamente assim. Desesperados, alguém lhe disse, são gente mórbida feito aquelas letras de blues melancólicas que quase sempre contam histórias de pais bêbados, mães enlouquecidas e sarjeta. E nessas horas lhe vinham à cabeça umas vozes roucas envoltas em melodias tristonhas, lamentando as infâncias sem esperança, chorando os poços sem fundo, as ressacas homéricas, as ressacas sem ao menos a lembrança prazerosa da embriaguez; vozes amargas destilando dor e desenhando imagens de garrafas vazias espalhadas pelo chão, miséria, amores desfeitos, amores natimortos, sarjeta, fim da linha. Enquanto em algum lugar da casa um disco arranhado repetia I'd rather be blind, ele olhava o sol lá fora, pensando na ironia: aquela dor infinita dos negros americanos, transformada em música, enchera de dinheiro os bolsos de milhares de brancos espertos pelo mundo afora. Paciência. Afinal, quem sempre vence é a realpolitik.

A noite não ia passar dentro dele. Lá fora, porém, o sol parecia preso em alguma fenda do espaço. Não se mexia, seria dia para sempre. Queria afastar aquilo. Começou então a escrever cartas. Algumas, a maioria, tristes, sisudas, umas poucas alegres como a loucura (sim, ele era dado a alegrias e musicalidades fora de hora. Gostava de surpreender seus amigos com um inesperado senso de humor). As cartas foram surgindo aos poucos: longos poemas sem metro nem rima, mas todas sinceras. Não pensou em enviá-las, bastava-lhe saber o que diziam e para quem se dirigiam. Começou então a imaginar que faria mais sentido se ele próprio as respondesse, já que não se dispunha a fazer com que chegassem às mãos dos destinatários. A tarefa seria demorada e penosa mas talvez valesse a pena. Pelo menos pouparia o trabalho de esperar.

O Sr. X., por exemplo, lhe diria: "Meu jovem amigo, confesso que fiquei muitíssimo preocupado com tuas divagações. Parece que andas a desconfiar dos seres humanos. O que te fizeram? É urgente a tua volta para o mundo dos vivos, sinto que estás perto demais do inferno. Tuas cinzas, de que servirão para nós, os que te estimam?". E terminaria com uma demorada citação de algum obscuro filósofo romeno, sentenciando: "Creio que isso se aplica a ti. Urge que reflitas". Uma tal missiva seria mesmo típica do Sr. X. Sem nunca ter tido grandes idéias próprias, recorria a pequenos e enfadonhos pensamentos alheios. Logo em seguida, a resposta de Y., moça vanguardista que assistia reality shows escondida: "Nossa, o que deu em você? Essa tua carta me fez rir muito, apesar do tom aparentemente sério. Que história é essa de pornosofia sartre-bukowskiana? (...). Da próxima vez me manda um e-mail, tenho alergia a papel de carta. Não sei se te recomendo um divã ou um curso de dança de salão. Beijinho". Sem a menor sombra de dúvida, uma resposta surpreendente para quem já tentara o suicídio duas vezes. Y. era mesmo a própria modernidade. Mais adiante, viria Z., pragmático como sempre: "Vem para cá e vê se pára com essas maluquices. Daqui a pouco o verão acaba e você aí com essas masturbações epistolares. Deixa os políticos lá em Brasília, aquilo é um zoológico necessário, ainda que um tanto caro. Mas enfim, meu Maiakovski suburbano, fodam-se eles, a gente tem que ser feliz, porra. Já li todos esses teus poetas pessimistas e não ganhei nada com isso. E que papo é esse de que Ezra Pound era fascista? Não sei se seria menos poeta por causa disso. Você politiza demais, moleque. A propósito, meu diploma de Letras tá pendurado na parede do banheiro. Da próxima vez te mando uma foto dele". E, como de outras vezes, finalizaria com uma lista quase interminável de novos bares que conhecera nos meses anteriores. E a vida seguiria, divertida. Lá fora ainda era dia, afinal.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Ciência


Crês que a tua ciência é a única que encerra a verdade. Admirável é o teu empenho. Com ela construíste para ti mesmo a ilusão de um passado confortável, aquele que mais te convém, no qual tua consciência se acomoda como uma cabeça em um travesseiro macio; tudo se explica e se encaixa magistralmente, ainda que certas passagens sugiram bizarras assimetrias. Também ela, a ciência primordial, é tua fonte inspiradora no presente, transformando-te num juiz amargo, que tudo sabe e a quem nada escapa. Quanto ao futuro, tua ciência não faz previsões confiáveis, e é isso o que mais te atormenta no momento. O templo do teu oráculo não passa de uma cabana tosca.


Mas nem tudo é tormento. Tua ciência - que alguns idiotas e energúmenos considerariam pura metafísica - tem um quê de libertadora: justifica tuas piores atitudes e teus piores sentimentos, assim como teus mais severos e cruéis julgamentos. O mal está sempre no mundo, esse mundo sujo e mesquinho que não comporta teu saber erudito; jamais vislumbras esse mal dentro de ti. Nisso, no entanto, nada tens de original, pois assim são os comuns, os que tanto te horrorizam, embora sejam teus pares - e eles são muitos. Tu consegues a proeza de enxergá-los à distância, quando mais perto não poderiam estar.


Profunda é tua arrogância, na igual medida em que te presumes sábio. Teu medo é que te desvendem raso, impregnado da exata patologia que insistes em apontar nos outros. Assim é que vives a negar a busca desesperada pelas aparências, a mesmice, o vazio da existência, o egoísmo, enfim, teus fantasmas eternos. Em suma, são esses os teus valores, os quais julgas cultuar em segredo, mas que teimam em saltar aos olhos dos menos observadores, daqueles insensíveis que não reparam em nada.


Tua ciência é pura arte de fingir.