segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Olhares

- Eu as vejo como filhas ilegítimas das coisas, sabe? Há um culto exagerado a elas. - ele diz, solene.
- Talvez você tenha um pouco de razão quanto ao culto exagerado. Mas o que faria se não existissem? - ela retruca, simulando um olhar de espanto.
- A inteligência humana cuidaria disso, como cuidou de coisas mais difíceis, você não acha? No meu sonho de ontem elas jaziam abandonadas à sombra de árvores mudas; em torno delas, o mato crescia implacável.
- Feito a paisagem triste do pensamento de um morto? - ela pergunta, rindo - Só você mesmo para enxergar palavras em sonhos, moço bobo. "Poesias sonâmbulas", taí um bom título para um livro seu, se algum dia se animasse a escrevê-lo.
- Só se você fizer o prefácio...
- Antes de você escrever não dá. Não tenho tanto talento - e ela ri cada vez mais solta. - Além do mais, não quero ser cúmplice de um escritor que despreza as palavras.
- Eu não desprezo as palavras, apenas não me deixo escravizar por elas.
- Dramático, você, hein? Relaxe. O seu livro poderia terminar assim: "E assim ficarão até o fim dos tempos, a menos que algo aconteça. Sua matéria é forjada na dúvida, no querer dizer e não ser nada". Coisa de gente dramática mesmo.
- Onde você leu isso?
- Inventei agora, olhando seu rosto de filme épico italiano, tipo "Hércules contra os dragões". Aliás, você não deveria escrever, deveria fazer cinema mudo. Sem legendas.
- Gostei da idéia. A atriz principal dos meus filmes seria você.
- Ei, eu me contento com o prefácio do seu livro. Você tá enchendo demais a minha bola.
- Se você fosse a personagem principal do meu roteiro, que atriz desejaria que fizesse o seu papel?
- Pediria para você ressuscitar a Ingrid Thulin, aquela do Bergman.
- Ingrid Bergman?
- Não, é Thulin mesmo. Fez alguns filmes do Bergman, tinha um olhar absurdamente expressivo. Ideal para um filme sem palavras. Para contracenar com ela, o outro protagonista poderia ser um Peter O'Toole jovem. Olhos de labaredas.
- Gostei...Thulin-O'Toole. Soa bem. E seria um épico?
- Não, seria romântico. Não dá para desperdiçar olhares tão belos com dragões ou exércitos romanos.
- Poderia se chamar "Vozes do Olhar".
- Com esse calor, eu só penso em sorvete. E pare de me olhar assim.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Bar Niente

Não há tempo de pensar:
Um poema ou uma encíclica?
Sei lá, quero falar
De educação, moral ou química.
Das mazelas que só vejo
Pelo Jornal Nacional.
Haverá melhor ensejo
Que o prazer da descoberta?
Ah, um Colombo tropical
Sempre em estado de alerta,
Tipo assim um paladino,
Que ao ouvir tocar um hino
Peça um drink pro garçon.
Com a verve emocionada
E a garganta bem gelada,
Faz discurso em alemão,
Sem jamais sair do Tom.
O Jobim, esse sim! Cabra bom.
Bom de bossa e enxadrista.
Fazia chover no tabuleiro
Da baiana, que onde anda?
Só perguntando a Caymmi,
Que em sua esteira de vime,
Declarou a independência:
É doce morrer no mar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Mundos


Caminham lado a lado, muito vagarosamente, o que contrasta com a velocidade quase insana com que ela emenda uma frase na outra; as palavras vão se acumulando no ar feito mosaicos sonoros e flutuantes, dos quais ele consegue reter somente alguns pequenos fragmentos. Responde, a intervalos, buscando participar daquela urgência ou, ao menos, compreendê-la. Queria estar ligado a ela não apenas pela intenção da palavra, mas pela concretude de gestos, olhares, afetos. Seus mundos parecem planetas distantes, conectados momentaneamente por algum capricho do acaso. E no entanto ele deseja intensamente eternizar esse instante, inventando, quem sabe, uma geometria secreta que atrelasse as duas esferas para sempre. Já deixou, há muito, de tentar entender a felicidade: quer vivê-la e isso é tudo. "Ilusão é alimento de poetas", ela diz, de repente, como se estivesse a ler os pensamentos dele.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Busca




Esquece o abismo que te cravava os dentes todas as noites; há um mar à tua frente e, em algum ponto desse mar, uma certa ilha. Teus sonhos a descobriram e é para lá que partirás dentro de poucas horas. O vento sopra a teu favor e os dias têm sido límpidos, como convém à tua empreitada.

Antes de chegares ao teu destino, aportarás em muitos lugares - há mil ilhas nesse mar que contemplas - e em cada uma dessas escalas ouvirás dizer que ali é teu porto final, onde deves ficar e criar raízes. Tu, que viveste tão pouco, tenderás a crer na macia fluidez de tais palavras, que te serão dirigidas com alguma solenidade e, como é de se imaginar, com um certo desdém ante tua determinação juvenil. Assim são os velhos marinheiros. Cuida, porém, para que nada disso venha a deter teu leme.

Não há tesouros na ilha, como te poderiam fazer supor as repetidas lendas que sobre ela se contam nos sonhos. Em nada se assemelha ao paraíso; antes a uma ruína da natureza, com suas árvores sem folhas e seus montes enegrecidos e tristes. Os pássaros que ali vivem têm um cantar ora melancólico, ora estridente, durante o dia. Quando cai a noite, ganham o dom da fala humana e gritam impropérios aos visitantes até o amanhecer. Não se sabe de onde vieram e ninguém jamais os viu voar. Tampouco existe água potável lá.

Tu decerto quererás me perguntar por que razão alguém se deve lançar à procura de lugar tão hostil.

A resposta, meu caro, é simples: foi nessa ilha que abandonaste o que havia de melhor em ti, há muitos anos. Seguirás os vestígios e encontrarás os restos daquilo que foste jazendo na areia, quase calcinados pelo sol abrasador, e nesse momento tua busca terá terminado.

sábado, 1 de dezembro de 2007

e-Bope, Veja e o escambau (ou Afogados no raso)


Resisti um pouco a assistir ao "Tropa de Elite". Resisti mais ainda a falar sobre o filme depois de tê-lo visto no cinema, de onde saí perplexo e desiludido. Perplexo, por ter ficado em mim a sensação de que a história privilegia, sem disfarces, o aspecto de espetáculo visual. Forma como fim e não como meio. Tudo bem, cinema é arte visual mesmo - tenham paciência com este pobre blogueiro - mas em que medida precisamos rever o que já vimos tantas vezes, desse Cirque Du Soleil da violência? Bom, talvez algumas pessoas achem necessário satisfazer certos caprichos bizarros da emoção, o que nos leva ao surrado mote da "questão de gosto". Desiludido, porque o conteúdo não se presta em nenhum momento ao aprofundamento da discussão em torno da violência, justamente por lhe dar tratamento estético a priori, sem fazer concessões para outras possibilidades da percepção. E não é por subestimar a capacidade de compreensão do público, não sejamos ingênuos. Optou pela violência-show o nosso Quentin Tarantino dos trópicos, quando poderia ter oferecido algo mais substancial. Exigências de mercado? Não gostaria de crer numa tal hipótese. Nesse viés, "Tropa de Elite" se iguala aos velhos westerns: elege seus mocinhos e bandidos, coloca-os na arena e sugere candidamente ao público que faça suas apostas. Claro que os bandidos são bandidos, mas serão os mocinhos tão óbvios assim?

Antes que alguém se insurja contra a má-vontade que porventura enxergue aqui, argumentando que nenhum cineasta tem obrigação de ser doublé de sociólogo, ou que a arte não tem de ser necessariamente engajada, ou, indo mais longe na tergiversação, que é livre a manifestação do pensamento etc, impõe-se a reflexão sobre a urgência do tema, escancaradamente apoiado na realidade. A polícia carioca existe, o BOPE é um órgão dessa polícia e as favelas do Rio de Janeiro não são apenas meras locações de filmagem, mas principalmente espaços sociais e geográficos representativos da exclusão, realidade portanto muito palpável e impossível de ser ignorada, mais ainda de ser encarada tão-somente como fonte inspiradora. Se era difícil aceitar isso em "Orfeu Negro", dirigido por um francês quase cinco décadas atrás, mais difícil será em 2007 e vindo de um diretor brasileiro.

Sou inclinado a não encontrar virtudes em produtos que a Veja elogia. É hábito antigo, que, em nome da coerência, não consigo abandonar. Melhor ser pirracento que ser otário. Até o Capitão Nascimento me daria razão... Embora não me agrade pensar que posso cair nessa tentação fácil, sinto que a reportagem de capa veiculada pela revista em outubro, extremamente apologética, reforça minha impressão negativa sobre o filme. Um trecho emblemático ilustra bem esse "jeito Veja de ser": "O assunto da obra do diretor José Padilha é a guerra diuturna que a polícia carioca move contra os traficantes de drogas encastelados nos morros favelizados da cidade. Mais especificamente o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a tropa de elite do título. O tráfico de drogas, o nervo mais exposto de um país em desordem e refém do medo (veja o quadro), é tema comum na cinematografia nacional recente. A diferença é que esse filme o aborda pondo os pingos nos is. Bandidos são bandidos, e não "vítimas da questão social". Há policiais corruptos, mas também muitos que são honestos. Se existem traficantes de cocaína e maconha, é porque há milhares de consumidores que os bancam. Muitos desses consumidores, aliás, são aqueles mesmos que fazem "passeatas pela paz" e compactuam com a bandidagem para abrir ONGs em favelas. Por último, a brutalidade de alguns policiais pode ser explicada pelo grau de penúria e abandono que o estado lhes reserva". Nossa, quanta coisa a Veja viu em tão pouco! E que olhar seletivo! A continuar assim, enxergando horrores nas entrelinhas, deverá mudar o nome para Raio-X (a cuja exposição excessiva sobrevém um câncer, diga-se). Em que pese a retórica impactante do repórter-cronista, Veja mais uma vez revelou sinais de sua miopia crônica. Aquilo que Veja não viu em "Tropa de Elite" ocuparia um espaço de reportagem bem maior, o que acabaria deixando alguns anunciantes muito irritados.

Mas, enfim, se podemos extrair algo de relevante do texto de Veja é que o diretor José Padilha fez uma opção consciente ao fechar o foco da abordagem sobre violência e crime organizado, tanto literal como figuradamente. Dar visibilidade a tais problemas já não basta. Sem olhar crítico, o que "pega geral" é a repetição ad nauseam das tragédias fora da tela. Cinema de resultados, feito aquele sindicalismo cínico à la Luiz Antônio Medeiros, que andou na moda nos anos 80. Osso duro de roer. E de engolir. Argh!

"Tropa de Elite" não é ruim, mas, paradoxalmente, não se alinha entre os exemplares do bom cinema, aquele que cutuca e gera discussões apaixonadas. Entretenimento, espetáculo, show-de-bola técnico, câmera esperta, de tudo isso a gente gosta, mas mexer em casa de marimbondo requer um algo mais. Ficou devendo.