- Eu as vejo como filhas ilegítimas das coisas, sabe? Há um culto exagerado a elas. - ele diz, solene.
- Talvez você tenha um pouco de razão quanto ao culto exagerado. Mas o que faria se não existissem? - ela retruca, simulando um olhar de espanto.
- A inteligência humana cuidaria disso, como cuidou de coisas mais difíceis, você não acha? No meu sonho de ontem elas jaziam abandonadas à sombra de árvores mudas; em torno delas, o mato crescia implacável.
- Feito a paisagem triste do pensamento de um morto? - ela pergunta, rindo - Só você mesmo para enxergar palavras em sonhos, moço bobo. "Poesias sonâmbulas", taí um bom título para um livro seu, se algum dia se animasse a escrevê-lo.
- Só se você fizer o prefácio...
- Antes de você escrever não dá. Não tenho tanto talento - e ela ri cada vez mais solta. - Além do mais, não quero ser cúmplice de um escritor que despreza as palavras.
- Eu não desprezo as palavras, apenas não me deixo escravizar por elas.
- Dramático, você, hein? Relaxe. O seu livro poderia terminar assim: "E assim ficarão até o fim dos tempos, a menos que algo aconteça. Sua matéria é forjada na dúvida, no querer dizer e não ser nada". Coisa de gente dramática mesmo.
- Onde você leu isso?
- Inventei agora, olhando seu rosto de filme épico italiano, tipo "Hércules contra os dragões". Aliás, você não deveria escrever, deveria fazer cinema mudo. Sem legendas.
- Gostei da idéia. A atriz principal dos meus filmes seria você.
- Ei, eu me contento com o prefácio do seu livro. Você tá enchendo demais a minha bola.
- Se você fosse a personagem principal do meu roteiro, que atriz desejaria que fizesse o seu papel?
- Pediria para você ressuscitar a Ingrid Thulin, aquela do Bergman.
- Ingrid Bergman?
- Não, é Thulin mesmo. Fez alguns filmes do Bergman, tinha um olhar absurdamente expressivo. Ideal para um filme sem palavras. Para contracenar com ela, o outro protagonista poderia ser um Peter O'Toole jovem. Olhos de labaredas.
- Gostei...Thulin-O'Toole. Soa bem. E seria um épico?
- Não, seria romântico. Não dá para desperdiçar olhares tão belos com dragões ou exércitos romanos.
- Poderia se chamar "Vozes do Olhar".
- Com esse calor, eu só penso em sorvete. E pare de me olhar assim.


