segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Silêncio


Que o meu silêncio ecoe em todos os lugares onde jamais estive;

Que vibre nas areias dos desertos, no fundo dos grandes lagos, nos campanários das igrejas, nas margens lamacentas dos rios;

Que flutue mansamente nas infinitas linhas de intermináveis horizontes, que se perca em espaços jamais suspeitados pelo olhar, sequer pela mente;

Que o meu silêncio seja a corda tensa do violino, para sempre à espreita do arco libertador que, no entanto, jamais virá;

Que ele, o silêncio, se faça ouvir por uma alma acorrentada, noite após noite, até sobrevir a loucura, filha bastarda desse mesmo silêncio que em vão tento expulsar de mim;

A morte conjuga o silêncio, que conjuga o verso sem verbos de algum poema macabro feito só de imagens e ventos;

Eu digo o silêncio enquanto um barco sem sobreviventes adentra o porto, voltando de uma longa jornada;

Eu trago o silêncio e sinto sua acidez corrosiva e vagamente - apenas vagamente - doce a me queimar as entranhas;

Em silêncio sejam todas as despedidas.

2 comentários:

Paulo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aurea Charpinel disse...

Paulo, estou cada vez mais impressionada com o seu talento, quanto riqueza interior...

"Que o meu silêncio seja a corda tensa do violino, para sempre à espreita do arco libertador que, no entanto, jamais virá"

O arco libertador está vindo, é a sua poesia, deixe-se tocar, meu querido amigo!
Beijos,
Aurea.