
Ouve música ao longe e alguns risos. Alguém canta. Por um breve momento lhe vem a tentação de ir ao encontro dessa gente sem culpa que faz soar instrumentos no meio da noite, indiferente aos ditames da melancolia. De que material será feita sua ousadia? Logo reprime a sensação, por absurda. Afinal, está contaminado por um silêncio de séculos e uma dor infinita, atributos indesejáveis. Fardos pesados assim não combinam com música. Nada de poesia para oferecer, nada de sonhos para partilhar, no fundo é apenas a vontade de se aproximar sem ser notado pela confraria alegremente barulhenta que enche a escuridão de sons. Em outros tempos ele os reconheceria, falaria sua língua, mas hoje... Essa timidez forjada na desconfiança tem povoado seus dias; esse açoite sem tréguas chamado realidade é a negação da vida sem, no entanto, ser morte. Corta-lhe a carne, mas o mantém acordado e atento, espectador do bizarro, do inominável, enfim, da própria dor. Buscar a irrealidade onde quer que ela se esconda, eis o caminho. A música que agora se espalha na penumbra do quarto talvez não seja real: há de ser (quem sabe?) apenas uma urgência da alma. "Tantos livros lidos e nenhuma resposta para nada", pensa, sorrindo. Urge traçar planos de fuga antes que a última estrela se dissolva na indiferença do sol.
2 comentários:
Uma tristeza infinita nos sons que vêm da alma, descrita com tanta beleza...
Você é maravilhoso, querido amigo!
Saudadesssssssssssssssss...
Saudades de você também, visse? Suas rimas andam fazendo falta. Bjs.
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