sábado, 24 de novembro de 2007

Menos infinito


Havia algum tempo que ele via e sentia tudo com o pasmo de uma primeira vez. Sensação estranha essa, que a cada dia se estendia às coisas mais banais. Pássaros, flores, sons, edifícios, ruas, tudo se afigurava inédito. Não associava isso, no entanto, àquele prazer da descoberta, tão típico das crianças. Ah! Disso ele ainda se lembrava: fora criança um dia e experimentara mil vezes o prazer do novo, seus sentidos todos à flor da pele, sempre à espera de algo, como antenas vivas, insaciáveis. Agora era um desconforto, invadia-o certo sentimento de não pertencer ao mundo em volta. Olhava-se no espelho e não conseguia achar a mais vaga familiaridade nos traços de seu rosto. E aquela voz? Era a sua, sempre fora, decerto. Mas decididamente não soava como se fosse. Esse recomeço doloroso o atiraria na mais cruel das solidões. Era jovem ainda, mas já se via como um inválido, a quem todos, dali por diante, teriam de auxiliar nas tarefas mais simples. Soletraria o mundo novamente, como um bebê tardio. Talvez os loucos fossem exatamente isso: bebês tardios, submetidos ao choque diário com a concretude das coisas, incapazes de enrijecer suas couraças. Por quanto tempo poderia viver assim? Sua família não o rejeitaria por isso, sabia-se amado. Mas, e o resto? Amigos o evitariam sutilmente. Pensava neles, evocando seus nomes. Não, não precisaria daqueles amigos cujos nomes já não lhe diziam nada. Na verdade, nem sua família faria lá muita falta. Sabia que tinha mulher e filhos, os sinais estavam evidentes, embora não se lembrasse de nada que os ligasse a ele. Solidão, o que é mesmo? Seus laços afetivos iam-se afrouxando aos poucos; afinal o amor, o que seria senão esse amálgama de pequenas lembranças, gestos presentes, olhares, dizeres? Ao mesmo tempo um aprendizado e uma simbologia para iniciados, isso deveria ser o amor. Algo reservado às pessoas que pertenciam ao mundo do qual ele aos poucos ia sendo desconectado. O desconforto inicial arrefecia, mas dava lugar ao horror de perceber a própria desumanização. Em breve não reconheceria mais nada. Tudo pareceria irremediavelmente destituído de sentido. Não conseguiria sequer se matar. Só mesmo Kafka poderia escrever o fim de sua história. Mas quem era mesmo Kafka?

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