segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Silêncio


Que o meu silêncio ecoe em todos os lugares onde jamais estive;

Que vibre nas areias dos desertos, no fundo dos grandes lagos, nos campanários das igrejas, nas margens lamacentas dos rios;

Que flutue mansamente nas infinitas linhas de intermináveis horizontes, que se perca em espaços jamais suspeitados pelo olhar, sequer pela mente;

Que o meu silêncio seja a corda tensa do violino, para sempre à espreita do arco libertador que, no entanto, jamais virá;

Que ele, o silêncio, se faça ouvir por uma alma acorrentada, noite após noite, até sobrevir a loucura, filha bastarda desse mesmo silêncio que em vão tento expulsar de mim;

A morte conjuga o silêncio, que conjuga o verso sem verbos de algum poema macabro feito só de imagens e ventos;

Eu digo o silêncio enquanto um barco sem sobreviventes adentra o porto, voltando de uma longa jornada;

Eu trago o silêncio e sinto sua acidez corrosiva e vagamente - apenas vagamente - doce a me queimar as entranhas;

Em silêncio sejam todas as despedidas.

sábado, 24 de novembro de 2007

Menos infinito


Havia algum tempo que ele via e sentia tudo com o pasmo de uma primeira vez. Sensação estranha essa, que a cada dia se estendia às coisas mais banais. Pássaros, flores, sons, edifícios, ruas, tudo se afigurava inédito. Não associava isso, no entanto, àquele prazer da descoberta, tão típico das crianças. Ah! Disso ele ainda se lembrava: fora criança um dia e experimentara mil vezes o prazer do novo, seus sentidos todos à flor da pele, sempre à espera de algo, como antenas vivas, insaciáveis. Agora era um desconforto, invadia-o certo sentimento de não pertencer ao mundo em volta. Olhava-se no espelho e não conseguia achar a mais vaga familiaridade nos traços de seu rosto. E aquela voz? Era a sua, sempre fora, decerto. Mas decididamente não soava como se fosse. Esse recomeço doloroso o atiraria na mais cruel das solidões. Era jovem ainda, mas já se via como um inválido, a quem todos, dali por diante, teriam de auxiliar nas tarefas mais simples. Soletraria o mundo novamente, como um bebê tardio. Talvez os loucos fossem exatamente isso: bebês tardios, submetidos ao choque diário com a concretude das coisas, incapazes de enrijecer suas couraças. Por quanto tempo poderia viver assim? Sua família não o rejeitaria por isso, sabia-se amado. Mas, e o resto? Amigos o evitariam sutilmente. Pensava neles, evocando seus nomes. Não, não precisaria daqueles amigos cujos nomes já não lhe diziam nada. Na verdade, nem sua família faria lá muita falta. Sabia que tinha mulher e filhos, os sinais estavam evidentes, embora não se lembrasse de nada que os ligasse a ele. Solidão, o que é mesmo? Seus laços afetivos iam-se afrouxando aos poucos; afinal o amor, o que seria senão esse amálgama de pequenas lembranças, gestos presentes, olhares, dizeres? Ao mesmo tempo um aprendizado e uma simbologia para iniciados, isso deveria ser o amor. Algo reservado às pessoas que pertenciam ao mundo do qual ele aos poucos ia sendo desconectado. O desconforto inicial arrefecia, mas dava lugar ao horror de perceber a própria desumanização. Em breve não reconheceria mais nada. Tudo pareceria irremediavelmente destituído de sentido. Não conseguiria sequer se matar. Só mesmo Kafka poderia escrever o fim de sua história. Mas quem era mesmo Kafka?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Noite


Ouve música ao longe e alguns risos. Alguém canta. Por um breve momento lhe vem a tentação de ir ao encontro dessa gente sem culpa que faz soar instrumentos no meio da noite, indiferente aos ditames da melancolia. De que material será feita sua ousadia? Logo reprime a sensação, por absurda. Afinal, está contaminado por um silêncio de séculos e uma dor infinita, atributos indesejáveis. Fardos pesados assim não combinam com música. Nada de poesia para oferecer, nada de sonhos para partilhar, no fundo é apenas a vontade de se aproximar sem ser notado pela confraria alegremente barulhenta que enche a escuridão de sons. Em outros tempos ele os reconheceria, falaria sua língua, mas hoje... Essa timidez forjada na desconfiança tem povoado seus dias; esse açoite sem tréguas chamado realidade é a negação da vida sem, no entanto, ser morte. Corta-lhe a carne, mas o mantém acordado e atento, espectador do bizarro, do inominável, enfim, da própria dor. Buscar a irrealidade onde quer que ela se esconda, eis o caminho. A música que agora se espalha na penumbra do quarto talvez não seja real: há de ser (quem sabe?) apenas uma urgência da alma. "Tantos livros lidos e nenhuma resposta para nada", pensa, sorrindo. Urge traçar planos de fuga antes que a última estrela se dissolva na indiferença do sol.

sábado, 10 de novembro de 2007

O outro


Na tentativa de compreender o outro, ele se esquece de si próprio. Abandona-se. Vem um sono profundo, que dura muitos anos. Ao acordar, vê-se transformado no outro. Já não reconhece o timbre da própria voz, é o outro quem fala por ele. Lembra-se vagamente de ter tido uma vida turbulenta e de ter lutado em muitas batalhas. Certamente a última lhe trouxe a morte, isso explica tudo. Reencarnou, decerto, numa criatura desconhecida, sendo ainda ele mesmo de alguma forma. Ri de coisas sem graça, tem pudores inexplicáveis e é assaltado por emoções descabidas, tendo plena consciência disso. Professa outros valores, adora outros deuses. Talvez isso seja o Inferno. A eterna dor. A suprema perda.

Está agora numa sala em que há um espelho e uma janela, os quais evita a todo custo. Não quer ver o mundo lá fora, tampouco sua nova imagem. Nada sabe sobre sua nova condição, mas acabará descobrindo alguma coisa pelos diálogos que forçosamente terá com as pessoas que acabam de entrar. Estranhamente, parece conhecê-las. Chama-as por seus nomes, convida-as a se sentarem, bebe com elas. Riem de tudo o que fala: serão falsas ou idiotas?

Passam-se mais alguns anos. Envelhece, ou melhor, o outro envelhece e morre. Acorda e corre ao espelho, ri, chora, abre a janela e grita. Está vivo.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Todo mundo é filósofo, ueba!


O básico não tá resolvido e a gente querendo resolver o transcendental. O arroz e o feijão não frequentam a mesa desde o Gênesis e o sujeito tentando descobrir o sentido da vida. Vai morrer sem saber. De fome. Às vezes sou tentado a me insurgir contra uma certa inutilidade da Filosofia, embora saiba que não é ela quem manipula os fios. Ela, a Filosofia, é instrumento que dá certo em mãos certas e errado em mãos erradas. Agora, uma ressalva: o básico não é só o feijão com arroz. "A gente não quer só comida", já disseram, né? Quer carinho, respeito, quer o olhar desarmado do outro - ou ao menos sua compreensão - e uma porrada de outras coisas que nos são sonegadas diariamente. Mas não há tempo para dar de coitadinho. A bunda tá sempre na janela, ainda que pareça protegida. Mas nada de estratégias fáceis, como atacar seus irmãos, amigos, amores e assim se sentir "vingado". O mundo tá te devendo, amiguinho, eu sei. Nem por isso te dá o direito de oprimir quem tá do teu lado. Passa a mão na bunda do guarda de trânsito, que tal? Ele também representa o poder que te sacaneia. Vai pra frente do Palácio do Planalto e estende uma faixa xingando a mãe do Lula. Esfaqueia a Mona Lisa (isso já fizeram, não seria original). Nem é tão difícil assim assumir essa postura "rebelde" (risos). Difícil mesmo é se olhar como parte do próprio problema, como se fosse doer menos ficar de fora do diagnóstico. Também não adianta diagnosticar certo e adotar posturas erradas, filosofias da moda (todo mundo quer ser budista, que gracinha, né? Viver na Índia ninguém quer) e auto-ajudas. Meia dúzia de frases feitas e alguns "ismos" depois e você percebe o logro impingido pelos filósofos de boutique, os paulocoelhismos disfarçados que te passaram como coisas elegantes, último tipo. Filosofia mesmo, com letra maiúscula, é um buraco mais profundo.