Que vibre nas areias dos desertos, no fundo dos grandes lagos, nos campanários das igrejas, nas margens lamacentas dos rios;
Que flutue mansamente nas infinitas linhas de intermináveis horizontes, que se perca em espaços jamais suspeitados pelo olhar, sequer pela mente;
Que o meu silêncio seja a corda tensa do violino, para sempre à espreita do arco libertador que, no entanto, jamais virá;
Que ele, o silêncio, se faça ouvir por uma alma acorrentada, noite após noite, até sobrevir a loucura, filha bastarda desse mesmo silêncio que em vão tento expulsar de mim;
A morte conjuga o silêncio, que conjuga o verso sem verbos de algum poema macabro feito só de imagens e ventos;
Eu digo o silêncio enquanto um barco sem sobreviventes adentra o porto, voltando de uma longa jornada;
Eu trago o silêncio e sinto sua acidez corrosiva e vagamente - apenas vagamente - doce a me queimar as entranhas;
Em silêncio sejam todas as despedidas.




