
Lembrar da infância poderia ser algo menos complicado. Fazer o inventário das palavras ditas a esmo, das brincadeiras, dos sonhos bobos, dos "nunca mais", dos "para sempre", tudo tão deliciosamente irrealizado... bem que poderia ser uma diversão. Ou um não-sofrimento, ao menos. Nada disso me ocorre, no entanto. O que chega são sensações difusas, recordações de gostos e odores, lugares estranhos, rostos sem nome. Memória-bazar. Brechó nonsense. Pequena loja dos horrores, eis o que tenho no sótão. Ah, que inveja dos que sabem invocar as coisas concretas e aconchegantes da infância! Para essas pessoas o passado tem o formato de uma caixinha cheia de fotografias, cada uma delas com alegres anotações no verso, sejam dedicatórias ou datas significativas para ornar um orgulhoso sobrenome... que bela é a linearidade e obediência do tempo que flui na vida dessa gente! Tudo é luminoso, há fartura de (bons) detalhes. Meus arquivos são tormentosos e caóticos, sugerindo gestos inacabados, pensamentos mutilados, sonhos híbridos, sons inarticulados: o meu baú de lembranças sequer tem forma ou tampa. E está sempre à espreita. Jamais o procuro, é ele quem me aparece de repente, às vezes no meio da noite, assumindo a forma de um demônio sorridente e convidativo que atira pedrinhas, cada qual mais bizarra. Minha memória é meu cárcere.