segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Olhares

- Eu as vejo como filhas ilegítimas das coisas, sabe? Há um culto exagerado a elas. - ele diz, solene.
- Talvez você tenha um pouco de razão quanto ao culto exagerado. Mas o que faria se não existissem? - ela retruca, simulando um olhar de espanto.
- A inteligência humana cuidaria disso, como cuidou de coisas mais difíceis, você não acha? No meu sonho de ontem elas jaziam abandonadas à sombra de árvores mudas; em torno delas, o mato crescia implacável.
- Feito a paisagem triste do pensamento de um morto? - ela pergunta, rindo - Só você mesmo para enxergar palavras em sonhos, moço bobo. "Poesias sonâmbulas", taí um bom título para um livro seu, se algum dia se animasse a escrevê-lo.
- Só se você fizer o prefácio...
- Antes de você escrever não dá. Não tenho tanto talento - e ela ri cada vez mais solta. - Além do mais, não quero ser cúmplice de um escritor que despreza as palavras.
- Eu não desprezo as palavras, apenas não me deixo escravizar por elas.
- Dramático, você, hein? Relaxe. O seu livro poderia terminar assim: "E assim ficarão até o fim dos tempos, a menos que algo aconteça. Sua matéria é forjada na dúvida, no querer dizer e não ser nada". Coisa de gente dramática mesmo.
- Onde você leu isso?
- Inventei agora, olhando seu rosto de filme épico italiano, tipo "Hércules contra os dragões". Aliás, você não deveria escrever, deveria fazer cinema mudo. Sem legendas.
- Gostei da idéia. A atriz principal dos meus filmes seria você.
- Ei, eu me contento com o prefácio do seu livro. Você tá enchendo demais a minha bola.
- Se você fosse a personagem principal do meu roteiro, que atriz desejaria que fizesse o seu papel?
- Pediria para você ressuscitar a Ingrid Thulin, aquela do Bergman.
- Ingrid Bergman?
- Não, é Thulin mesmo. Fez alguns filmes do Bergman, tinha um olhar absurdamente expressivo. Ideal para um filme sem palavras. Para contracenar com ela, o outro protagonista poderia ser um Peter O'Toole jovem. Olhos de labaredas.
- Gostei...Thulin-O'Toole. Soa bem. E seria um épico?
- Não, seria romântico. Não dá para desperdiçar olhares tão belos com dragões ou exércitos romanos.
- Poderia se chamar "Vozes do Olhar".
- Com esse calor, eu só penso em sorvete. E pare de me olhar assim.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Bar Niente

Não há tempo de pensar:
Um poema ou uma encíclica?
Sei lá, quero falar
De educação, moral ou química.
Das mazelas que só vejo
Pelo Jornal Nacional.
Haverá melhor ensejo
Que o prazer da descoberta?
Ah, um Colombo tropical
Sempre em estado de alerta,
Tipo assim um paladino,
Que ao ouvir tocar um hino
Peça um drink pro garçon.
Com a verve emocionada
E a garganta bem gelada,
Faz discurso em alemão,
Sem jamais sair do Tom.
O Jobim, esse sim! Cabra bom.
Bom de bossa e enxadrista.
Fazia chover no tabuleiro
Da baiana, que onde anda?
Só perguntando a Caymmi,
Que em sua esteira de vime,
Declarou a independência:
É doce morrer no mar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Mundos


Caminham lado a lado, muito vagarosamente, o que contrasta com a velocidade quase insana com que ela emenda uma frase na outra; as palavras vão se acumulando no ar feito mosaicos sonoros e flutuantes, dos quais ele consegue reter somente alguns pequenos fragmentos. Responde, a intervalos, buscando participar daquela urgência ou, ao menos, compreendê-la. Queria estar ligado a ela não apenas pela intenção da palavra, mas pela concretude de gestos, olhares, afetos. Seus mundos parecem planetas distantes, conectados momentaneamente por algum capricho do acaso. E no entanto ele deseja intensamente eternizar esse instante, inventando, quem sabe, uma geometria secreta que atrelasse as duas esferas para sempre. Já deixou, há muito, de tentar entender a felicidade: quer vivê-la e isso é tudo. "Ilusão é alimento de poetas", ela diz, de repente, como se estivesse a ler os pensamentos dele.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Busca




Esquece o abismo que te cravava os dentes todas as noites; há um mar à tua frente e, em algum ponto desse mar, uma certa ilha. Teus sonhos a descobriram e é para lá que partirás dentro de poucas horas. O vento sopra a teu favor e os dias têm sido límpidos, como convém à tua empreitada.

Antes de chegares ao teu destino, aportarás em muitos lugares - há mil ilhas nesse mar que contemplas - e em cada uma dessas escalas ouvirás dizer que ali é teu porto final, onde deves ficar e criar raízes. Tu, que viveste tão pouco, tenderás a crer na macia fluidez de tais palavras, que te serão dirigidas com alguma solenidade e, como é de se imaginar, com um certo desdém ante tua determinação juvenil. Assim são os velhos marinheiros. Cuida, porém, para que nada disso venha a deter teu leme.

Não há tesouros na ilha, como te poderiam fazer supor as repetidas lendas que sobre ela se contam nos sonhos. Em nada se assemelha ao paraíso; antes a uma ruína da natureza, com suas árvores sem folhas e seus montes enegrecidos e tristes. Os pássaros que ali vivem têm um cantar ora melancólico, ora estridente, durante o dia. Quando cai a noite, ganham o dom da fala humana e gritam impropérios aos visitantes até o amanhecer. Não se sabe de onde vieram e ninguém jamais os viu voar. Tampouco existe água potável lá.

Tu decerto quererás me perguntar por que razão alguém se deve lançar à procura de lugar tão hostil.

A resposta, meu caro, é simples: foi nessa ilha que abandonaste o que havia de melhor em ti, há muitos anos. Seguirás os vestígios e encontrarás os restos daquilo que foste jazendo na areia, quase calcinados pelo sol abrasador, e nesse momento tua busca terá terminado.

sábado, 1 de dezembro de 2007

e-Bope, Veja e o escambau (ou Afogados no raso)


Resisti um pouco a assistir ao "Tropa de Elite". Resisti mais ainda a falar sobre o filme depois de tê-lo visto no cinema, de onde saí perplexo e desiludido. Perplexo, por ter ficado em mim a sensação de que a história privilegia, sem disfarces, o aspecto de espetáculo visual. Forma como fim e não como meio. Tudo bem, cinema é arte visual mesmo - tenham paciência com este pobre blogueiro - mas em que medida precisamos rever o que já vimos tantas vezes, desse Cirque Du Soleil da violência? Bom, talvez algumas pessoas achem necessário satisfazer certos caprichos bizarros da emoção, o que nos leva ao surrado mote da "questão de gosto". Desiludido, porque o conteúdo não se presta em nenhum momento ao aprofundamento da discussão em torno da violência, justamente por lhe dar tratamento estético a priori, sem fazer concessões para outras possibilidades da percepção. E não é por subestimar a capacidade de compreensão do público, não sejamos ingênuos. Optou pela violência-show o nosso Quentin Tarantino dos trópicos, quando poderia ter oferecido algo mais substancial. Exigências de mercado? Não gostaria de crer numa tal hipótese. Nesse viés, "Tropa de Elite" se iguala aos velhos westerns: elege seus mocinhos e bandidos, coloca-os na arena e sugere candidamente ao público que faça suas apostas. Claro que os bandidos são bandidos, mas serão os mocinhos tão óbvios assim?

Antes que alguém se insurja contra a má-vontade que porventura enxergue aqui, argumentando que nenhum cineasta tem obrigação de ser doublé de sociólogo, ou que a arte não tem de ser necessariamente engajada, ou, indo mais longe na tergiversação, que é livre a manifestação do pensamento etc, impõe-se a reflexão sobre a urgência do tema, escancaradamente apoiado na realidade. A polícia carioca existe, o BOPE é um órgão dessa polícia e as favelas do Rio de Janeiro não são apenas meras locações de filmagem, mas principalmente espaços sociais e geográficos representativos da exclusão, realidade portanto muito palpável e impossível de ser ignorada, mais ainda de ser encarada tão-somente como fonte inspiradora. Se era difícil aceitar isso em "Orfeu Negro", dirigido por um francês quase cinco décadas atrás, mais difícil será em 2007 e vindo de um diretor brasileiro.

Sou inclinado a não encontrar virtudes em produtos que a Veja elogia. É hábito antigo, que, em nome da coerência, não consigo abandonar. Melhor ser pirracento que ser otário. Até o Capitão Nascimento me daria razão... Embora não me agrade pensar que posso cair nessa tentação fácil, sinto que a reportagem de capa veiculada pela revista em outubro, extremamente apologética, reforça minha impressão negativa sobre o filme. Um trecho emblemático ilustra bem esse "jeito Veja de ser": "O assunto da obra do diretor José Padilha é a guerra diuturna que a polícia carioca move contra os traficantes de drogas encastelados nos morros favelizados da cidade. Mais especificamente o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a tropa de elite do título. O tráfico de drogas, o nervo mais exposto de um país em desordem e refém do medo (veja o quadro), é tema comum na cinematografia nacional recente. A diferença é que esse filme o aborda pondo os pingos nos is. Bandidos são bandidos, e não "vítimas da questão social". Há policiais corruptos, mas também muitos que são honestos. Se existem traficantes de cocaína e maconha, é porque há milhares de consumidores que os bancam. Muitos desses consumidores, aliás, são aqueles mesmos que fazem "passeatas pela paz" e compactuam com a bandidagem para abrir ONGs em favelas. Por último, a brutalidade de alguns policiais pode ser explicada pelo grau de penúria e abandono que o estado lhes reserva". Nossa, quanta coisa a Veja viu em tão pouco! E que olhar seletivo! A continuar assim, enxergando horrores nas entrelinhas, deverá mudar o nome para Raio-X (a cuja exposição excessiva sobrevém um câncer, diga-se). Em que pese a retórica impactante do repórter-cronista, Veja mais uma vez revelou sinais de sua miopia crônica. Aquilo que Veja não viu em "Tropa de Elite" ocuparia um espaço de reportagem bem maior, o que acabaria deixando alguns anunciantes muito irritados.

Mas, enfim, se podemos extrair algo de relevante do texto de Veja é que o diretor José Padilha fez uma opção consciente ao fechar o foco da abordagem sobre violência e crime organizado, tanto literal como figuradamente. Dar visibilidade a tais problemas já não basta. Sem olhar crítico, o que "pega geral" é a repetição ad nauseam das tragédias fora da tela. Cinema de resultados, feito aquele sindicalismo cínico à la Luiz Antônio Medeiros, que andou na moda nos anos 80. Osso duro de roer. E de engolir. Argh!

"Tropa de Elite" não é ruim, mas, paradoxalmente, não se alinha entre os exemplares do bom cinema, aquele que cutuca e gera discussões apaixonadas. Entretenimento, espetáculo, show-de-bola técnico, câmera esperta, de tudo isso a gente gosta, mas mexer em casa de marimbondo requer um algo mais. Ficou devendo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Silêncio


Que o meu silêncio ecoe em todos os lugares onde jamais estive;

Que vibre nas areias dos desertos, no fundo dos grandes lagos, nos campanários das igrejas, nas margens lamacentas dos rios;

Que flutue mansamente nas infinitas linhas de intermináveis horizontes, que se perca em espaços jamais suspeitados pelo olhar, sequer pela mente;

Que o meu silêncio seja a corda tensa do violino, para sempre à espreita do arco libertador que, no entanto, jamais virá;

Que ele, o silêncio, se faça ouvir por uma alma acorrentada, noite após noite, até sobrevir a loucura, filha bastarda desse mesmo silêncio que em vão tento expulsar de mim;

A morte conjuga o silêncio, que conjuga o verso sem verbos de algum poema macabro feito só de imagens e ventos;

Eu digo o silêncio enquanto um barco sem sobreviventes adentra o porto, voltando de uma longa jornada;

Eu trago o silêncio e sinto sua acidez corrosiva e vagamente - apenas vagamente - doce a me queimar as entranhas;

Em silêncio sejam todas as despedidas.

sábado, 24 de novembro de 2007

Menos infinito


Havia algum tempo que ele via e sentia tudo com o pasmo de uma primeira vez. Sensação estranha essa, que a cada dia se estendia às coisas mais banais. Pássaros, flores, sons, edifícios, ruas, tudo se afigurava inédito. Não associava isso, no entanto, àquele prazer da descoberta, tão típico das crianças. Ah! Disso ele ainda se lembrava: fora criança um dia e experimentara mil vezes o prazer do novo, seus sentidos todos à flor da pele, sempre à espera de algo, como antenas vivas, insaciáveis. Agora era um desconforto, invadia-o certo sentimento de não pertencer ao mundo em volta. Olhava-se no espelho e não conseguia achar a mais vaga familiaridade nos traços de seu rosto. E aquela voz? Era a sua, sempre fora, decerto. Mas decididamente não soava como se fosse. Esse recomeço doloroso o atiraria na mais cruel das solidões. Era jovem ainda, mas já se via como um inválido, a quem todos, dali por diante, teriam de auxiliar nas tarefas mais simples. Soletraria o mundo novamente, como um bebê tardio. Talvez os loucos fossem exatamente isso: bebês tardios, submetidos ao choque diário com a concretude das coisas, incapazes de enrijecer suas couraças. Por quanto tempo poderia viver assim? Sua família não o rejeitaria por isso, sabia-se amado. Mas, e o resto? Amigos o evitariam sutilmente. Pensava neles, evocando seus nomes. Não, não precisaria daqueles amigos cujos nomes já não lhe diziam nada. Na verdade, nem sua família faria lá muita falta. Sabia que tinha mulher e filhos, os sinais estavam evidentes, embora não se lembrasse de nada que os ligasse a ele. Solidão, o que é mesmo? Seus laços afetivos iam-se afrouxando aos poucos; afinal o amor, o que seria senão esse amálgama de pequenas lembranças, gestos presentes, olhares, dizeres? Ao mesmo tempo um aprendizado e uma simbologia para iniciados, isso deveria ser o amor. Algo reservado às pessoas que pertenciam ao mundo do qual ele aos poucos ia sendo desconectado. O desconforto inicial arrefecia, mas dava lugar ao horror de perceber a própria desumanização. Em breve não reconheceria mais nada. Tudo pareceria irremediavelmente destituído de sentido. Não conseguiria sequer se matar. Só mesmo Kafka poderia escrever o fim de sua história. Mas quem era mesmo Kafka?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Noite


Ouve música ao longe e alguns risos. Alguém canta. Por um breve momento lhe vem a tentação de ir ao encontro dessa gente sem culpa que faz soar instrumentos no meio da noite, indiferente aos ditames da melancolia. De que material será feita sua ousadia? Logo reprime a sensação, por absurda. Afinal, está contaminado por um silêncio de séculos e uma dor infinita, atributos indesejáveis. Fardos pesados assim não combinam com música. Nada de poesia para oferecer, nada de sonhos para partilhar, no fundo é apenas a vontade de se aproximar sem ser notado pela confraria alegremente barulhenta que enche a escuridão de sons. Em outros tempos ele os reconheceria, falaria sua língua, mas hoje... Essa timidez forjada na desconfiança tem povoado seus dias; esse açoite sem tréguas chamado realidade é a negação da vida sem, no entanto, ser morte. Corta-lhe a carne, mas o mantém acordado e atento, espectador do bizarro, do inominável, enfim, da própria dor. Buscar a irrealidade onde quer que ela se esconda, eis o caminho. A música que agora se espalha na penumbra do quarto talvez não seja real: há de ser (quem sabe?) apenas uma urgência da alma. "Tantos livros lidos e nenhuma resposta para nada", pensa, sorrindo. Urge traçar planos de fuga antes que a última estrela se dissolva na indiferença do sol.

sábado, 10 de novembro de 2007

O outro


Na tentativa de compreender o outro, ele se esquece de si próprio. Abandona-se. Vem um sono profundo, que dura muitos anos. Ao acordar, vê-se transformado no outro. Já não reconhece o timbre da própria voz, é o outro quem fala por ele. Lembra-se vagamente de ter tido uma vida turbulenta e de ter lutado em muitas batalhas. Certamente a última lhe trouxe a morte, isso explica tudo. Reencarnou, decerto, numa criatura desconhecida, sendo ainda ele mesmo de alguma forma. Ri de coisas sem graça, tem pudores inexplicáveis e é assaltado por emoções descabidas, tendo plena consciência disso. Professa outros valores, adora outros deuses. Talvez isso seja o Inferno. A eterna dor. A suprema perda.

Está agora numa sala em que há um espelho e uma janela, os quais evita a todo custo. Não quer ver o mundo lá fora, tampouco sua nova imagem. Nada sabe sobre sua nova condição, mas acabará descobrindo alguma coisa pelos diálogos que forçosamente terá com as pessoas que acabam de entrar. Estranhamente, parece conhecê-las. Chama-as por seus nomes, convida-as a se sentarem, bebe com elas. Riem de tudo o que fala: serão falsas ou idiotas?

Passam-se mais alguns anos. Envelhece, ou melhor, o outro envelhece e morre. Acorda e corre ao espelho, ri, chora, abre a janela e grita. Está vivo.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Todo mundo é filósofo, ueba!


O básico não tá resolvido e a gente querendo resolver o transcendental. O arroz e o feijão não frequentam a mesa desde o Gênesis e o sujeito tentando descobrir o sentido da vida. Vai morrer sem saber. De fome. Às vezes sou tentado a me insurgir contra uma certa inutilidade da Filosofia, embora saiba que não é ela quem manipula os fios. Ela, a Filosofia, é instrumento que dá certo em mãos certas e errado em mãos erradas. Agora, uma ressalva: o básico não é só o feijão com arroz. "A gente não quer só comida", já disseram, né? Quer carinho, respeito, quer o olhar desarmado do outro - ou ao menos sua compreensão - e uma porrada de outras coisas que nos são sonegadas diariamente. Mas não há tempo para dar de coitadinho. A bunda tá sempre na janela, ainda que pareça protegida. Mas nada de estratégias fáceis, como atacar seus irmãos, amigos, amores e assim se sentir "vingado". O mundo tá te devendo, amiguinho, eu sei. Nem por isso te dá o direito de oprimir quem tá do teu lado. Passa a mão na bunda do guarda de trânsito, que tal? Ele também representa o poder que te sacaneia. Vai pra frente do Palácio do Planalto e estende uma faixa xingando a mãe do Lula. Esfaqueia a Mona Lisa (isso já fizeram, não seria original). Nem é tão difícil assim assumir essa postura "rebelde" (risos). Difícil mesmo é se olhar como parte do próprio problema, como se fosse doer menos ficar de fora do diagnóstico. Também não adianta diagnosticar certo e adotar posturas erradas, filosofias da moda (todo mundo quer ser budista, que gracinha, né? Viver na Índia ninguém quer) e auto-ajudas. Meia dúzia de frases feitas e alguns "ismos" depois e você percebe o logro impingido pelos filósofos de boutique, os paulocoelhismos disfarçados que te passaram como coisas elegantes, último tipo. Filosofia mesmo, com letra maiúscula, é um buraco mais profundo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Palavras


Brotam palavras cheias de encanto. Por um momento, pensei em trazê-las para cá. Mas não são minhas, são criações de ventos e pássaros. Melhor deixar que vivam nos campos, como flores. Não as colherei, apenas me limitarei a pronunciá-las secretamente, como uma homenagem.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Vazio


Quando nada mais fizer sentido, virá o vazio. Envelhecerei docemente, como uma espécie de monge, sem apegos ou paixões. Não sentirei mais angústias e tudo me parecerá harmoniosamente disposto no mundo. Falarei uma língua de poetas e sonharei todas as noites. E aí sim, tudo fará sentido.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Cárcere


Lembrar da infância poderia ser algo menos complicado. Fazer o inventário das palavras ditas a esmo, das brincadeiras, dos sonhos bobos, dos "nunca mais", dos "para sempre", tudo tão deliciosamente irrealizado... bem que poderia ser uma diversão. Ou um não-sofrimento, ao menos. Nada disso me ocorre, no entanto. O que chega são sensações difusas, recordações de gostos e odores, lugares estranhos, rostos sem nome. Memória-bazar. Brechó nonsense. Pequena loja dos horrores, eis o que tenho no sótão. Ah, que inveja dos que sabem invocar as coisas concretas e aconchegantes da infância! Para essas pessoas o passado tem o formato de uma caixinha cheia de fotografias, cada uma delas com alegres anotações no verso, sejam dedicatórias ou datas significativas para ornar um orgulhoso sobrenome... que bela é a linearidade e obediência do tempo que flui na vida dessa gente! Tudo é luminoso, há fartura de (bons) detalhes. Meus arquivos são tormentosos e caóticos, sugerindo gestos inacabados, pensamentos mutilados, sonhos híbridos, sons inarticulados: o meu baú de lembranças sequer tem forma ou tampa. E está sempre à espreita. Jamais o procuro, é ele quem me aparece de repente, às vezes no meio da noite, assumindo a forma de um demônio sorridente e convidativo que atira pedrinhas, cada qual mais bizarra. Minha memória é meu cárcere.

domingo, 22 de julho de 2007

Igreja Deus É Qualquer Coisa


Recebi um folheto de propaganda - isso mesmo, em Português é folder - falando da Igreja Deus é Qualquer Coisa. Achei interessante e repasso aqui pra vocês. Mas não me responsabilizo pela adesão, viram? É uma postagem meramente informativa. Segue o texto:"E virá o dia em que o Senhor dos Exércitos descerá de uma nave para punir os que prevaricaram. O céu se tornará púrpura para os pecadores, mas se apresentará limpidamente azul para os justos. Milhões de trombetas amplificadas soarão nesse momento, anunciando o fim da impureza e do materialismo. Uma fumaça vermelha envolverá toda a terra, a lembrar o sangue dos inocentes que pereceram na luta contra o mal. Nada do que dissestes ou do que fizestes terá passado despercebido. E sabereis que a hora do julgamento é chegada".

Igreja Universal Deus é Qualquer Coisa - Estrada do Maraú, 1250 - Vila Itaparica - São Paulo - Capital - telefax (0xx11) - 5555-9999.

Sei lá, tipo assim, parece um showzaço de rock. Não quero perder isso por nada nesse mundo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Silêncios satisfeitos


Somos dois silêncios satisfeitos, eu e ela. Não que não haja nada para dizer, é bem o contrário. Mas há nessa cumplicidade muda uma espécie de repouso de guerras passadas, nós ali quietos, encarando o teto, desarmados, prisioneiros de uma prisão infinita. Nada é combinado, mas dá tão certo que assusta. Poderíamos fazer mágicas para nos distrair mutuamente, até que seria divertido. Fecho os olhos e penso em coisas intraduzíveis. Passam-se dias, câmera acelerada, claro-escuro pulsando, o quarto varia de tom e de decoração. Tudo muda numa velocidade estonteante. Mas ela está ali, sorrindo de olhos fechados, feito um anjo bem-humorado. Isso me conforta, mas ainda não é o suficiente: quero ser um algo, mas ainda sou um quem. Essa imperfeição é a única coisa que me incomoda no momento. Meu sonho é dormir feito uma pedra e acordar pedra. Amanhece. Eu e ela apenas sentindo a correnteza do rio passar sobre nós.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Preguiça


A preguiça é um bicho sonolento que encontro quase todas as manhãs - já foram mais frequentes - no espelho do banheiro. Sequer me diz bom dia, a danada. E olha que nos conhecemos muitíssimo bem. Mas não sou mal-agradecido: gosto dela, apesar do ar blasé e de certos hábitos extravagantes, como passar sábados inteiros de pijama e meias. As gêmeas Preguiça e Inércia, deusas pagãs, reinaram absolutas na Colina de Menor Esforço, a mais alta da Península do Ócio, por boa parte da Antiguidade. Depois, extenuadas por milênios de monotonia, se recolheram num spa de endereço ignorado, onde passaram a Idade Média assistindo programas de variedades e jogando paciência. Inventaram o controle remoto antes mesmo de existir TV. Nas portas de seus quartos, uma frase dizia tudo: "I want to be alone". Inércia foi reabilitada por Sir Isaac Newton alguns séculos depois, tornando-se uma celebridade da Física. Para quem é mãe de todos os vícios, Dona Preguiça ainda exibe uma saúde invejável. O mesmo não se pode dizer dos filhos, caídos pelas sarjetas, mortos de fome e frio, humilhados, perseguidos, injustiçados. Erasmo de Rotterdan não viveu o suficiente para escrever o "Elogio da Preguiça". Ou então os originais se perderam, o que é mais provável. Se o pecado original tivesse sido a preguiça, ainda estaríamos no Éden: Adão e Eva não teriam comido a maçã oferecida pela serpente, com tanta manga caindo aqui e ali, sem precisar ao menos sair da rede pra pegá-las. E Caim não teria assassinado Abel, o queridinho da mamãe. Pura falta de saco, já que invejar dá um trabalho sinistro. Os animais não teriam nomes, seriam apenas criaturas tranquilas, preocupadas tão-somente em procurar uma boa sombra pra descansar. Pensando bem, não fazer nada por toda uma eternidade cansaria um pouco. Mas cá pra nós, dá uma preguiça danada de pensar numa solução para esse impasse.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Desembucha, cabra!


Nada ainda? É preciso escrever, então. Preguiça não dá bons textos. No máximo ela dá bons textos não-escritos, o que é lamentável. Não-textos. Não. Avancemos, pois, tentando justificar o título do blog, pra começar. "Poéticas" é bonito, lembra Aristóteles, que queria dar palpite sobre tudo, nas suas "Éticas", "Estéticas", "Políticas", "Poéticas" e sabe lá mais quantas "éticas" e "íticas". Mas o blog é bem modesto, apenas faz referências, tangencia, espia. Mas não copia, nem escaneia, muito menos sacaneia. A não ser o que mereça ser sacaneado, copiado ou escaneado. Não há o que justificar, poéticas são todas as coisas. Desde o olhar sem vida do pinguim sobre a geladeira ao surgimento de uma supernova na galáxia de Omega-Ni. Vai saindo assim meio parto a fórceps, dia chuvoso, agonia de lan-house cheia, gente olhando, adolescentes com os olhos pregados no herói virtual do game, que dá porrada em todo mundo e sai ileso. Puro. Sem mácula, exceto a do sangue que lhe molha as vestes. Gritaria na rua. Trabalho esperando pra daqui a cinco minutos. Poéticas. Todas. Prosaicas não menos. Enfim, um quase-texto. Um subtexto. Mas eu volto. Isso é uma ameaça.